Edgardo Xavier
Súplica
Cola-te ao meu corpo suado
E grita-me os teus beijos
Repudia-me com abraços
E expulsa-me
Depois do amor
Com as tuas mãos
Em febre.
Devassa os segredos
Do meu sexo
Adormecido
Conta-me as vontades
Os medos
E fecha-te comigo
Até ser dia…
Paixão
Paixão é uma cascata de luz
No rio cego da noite
Um estrondo no ermo da nave gótica
A violência doce de um fim anunciado
O tudo e o nada
Do tempo que nos remete
Sem mapa
Para a certeza das galáxias
Sem ti sou uma pedra aos tombos
Na calçada
Umas vezes batida
Outras parada
Só nos teus olhos me faço ave
E voo sem destino
À gargalhada.
Mágoas
Inquieto
desço pela margem da tarde
para a lisura do teu colo
Piso as horas pelos caminhos do teu olhar
e mergulho no tempo
até que venhas e me beijes
com a verdade do teu riso
Nunca o tempo foi preciso
no parado das noites vazias
como então
Nunca antes a aurora
emudecera no limiar da luz
como no dia em que
te cobriste de indiferença
para ficando
sair
Navegavas pelas palavras
com rigor de pedra
à superfície do amor
Vontade
Despida de roupa
e de falsidade
quero a nudez pura
na plenitude da tua pele
acesa
Quero-te assim
iluminada e tensa
como quem pensa
que me pode perder
e só me tem a mim
Fala -me de ti
Fala-me de ti
com acentos de mar
e jeito de vento
Fala-me com a doçura dos beijos
queimando a minha pele
na ânsia do tormento
em que me gasto
expectante
As minhas palavras de amor
escreveste-as na areia
e perderam-se
as que me vieram de ti
ainda correm no meu sangue
como emocionada lava
ardente
Fala-me de ti
com o peso dos silêncios
Porque inúteis são todas as palavras
no arrepio de vontades e sedes
ou quando te recupero
das redes do amor
e te gasto
combustando-me
no teu fogo
Fala-me de ti.
Por coração uma pedra
e no corpo este vazio
Crescem a sede
e as mágoas
no parado deste frio
Se vens acordo
e esqueço
que o coração de pedra não sente
Volto a ser rio
É em ti que moro
e vivo
que visito os horizontes
águas
serras
montes
que trazes no teu olhar
Se tu és fogo
tempo
e luz
Eu sou o mar
Não leio palavras nos teus olhos
mas vejo com a sua luz
um tempo de céu
um paraíso
um mar que me seduz
Não leio palavras nos teus olhos
leio a prata dos silêncios
e o barulho dos sentidos
Corre-me no sangue
a tua voz ardente
som de terra
queimada
a golpes de tempo
Corre-me no corpo
a força do lume
aceso
na seda breve dos teus dedos
descuidados
Apolo
Vens do fundo desta noite
Como uma aurora vibrante
Trazes-me o sol e o tempo
Doces
Como mel a escorrer
Da memória
Vens do fundo desta noite
E do centro da glória
Lavar-me o olhar
De silêncios e deserto
Desperto
Sou a tua seara em flor
O teu azul do mar
O teu céu
Sou o Apolo que viaja
Nos teus olhos
Pelas Palavras
Navego pelas palavras
Rio calmo
Voz de sempre
E corro da foz à nascente
Para sentir-te
É no limite que acontece
a mudança
que me transforma
de homem em criança
Água
Vento
E onda que estremece
Sóis são os teus olhos
ao cair da noite
sóis são os sons
que ardem nos teus lábios
quando me segredas o nome
O sol?
Existe quando não estás
Ao Toque Breve
Ardo ao toque breve do teu dedo
E o mundo estremece
Vai e volta
Desaparece
No sangue ao rubro
Do meu mármore jacente
Sou o homem
O adolescente
Que traz a força de um raio
E se desfaz em lava
Incandescente
Que vê na tua boca
Uma porta do paraíso
Violeta
Pressiono-te com o olhar
Botão de nada e roxo
Na fofura do verde
Mudo-te a luz
Mato-te a sede
E espero
Desejo
Quero
Que sejas já amanhã
A certeza
A cor
O aroma
A beleza.
E tu, amor, tardas
Demoras
Pedes tempo para a perfeição.
Para abrir a camisa
Anil e lisa
Do teu coração.
Hoje é o dia
Da euforia
Da aclamação
E tu, Flor
Com F grande e todos os estames
Quero que me chames
Com o teu grito amarelo
Ai música linda
Ai violeta ainda
Sem paralelo
As Palavras
As palavras ganham asas
E é provável que voem
No azul, até ao infinito.
As palavras rasam a verdura
Dos prados e mergulham fundo
Em lamas espúrias.
Algumas, porém, anoitecem...
Como se uma ave
Me sangrasse na mão
Uma pedrada.
Sei
Sei-te noite dentro
forma quente no escuro
corpo indiferente e vazio
estátua do que procuro
Sei de linhas e de voltas
bocados de um outro fazer
da maciez dos recantos
aos roteiros do prazer
Toco e logo te quebras
como pedra que se fende
a golpes de marreta
solta-se o corpo em festa
não há fome como esta
nem fogo que nos derreta
Desejo
Quando nos descobrimos com sede
E nos bebemos
Quando famintos nos saciamos
Na lava que nos acende
Deixa que corram os sentidos
Nessa louca dança do viver
Deixa que o sangue também corra
Aos borbotões
Pelas nossas veias em festa
E antes que se acabe o que resta
Deste universo de sedes e corações
Ama-me outra vez.
Conto-te
Conto-te
De uma chuva passageira
A oferecer jóias às flores
E a prender o pó à terra
Como quem acerta ou erra
Por que sim
Conto-te
De um instante
Preso nos teus lábios
Como fonte de palavras
e manancial de beijos
Um instante
A brilhar
Transparente
Como diamante lapidado
Só não te digo de ventos ou vontades
Nem de luz e claridades
Conto-te
Amor
Este peito em carne viva
Porque me olhas
Porque me olhas
Voo sem medo
Por lugares que não sei
Ouso a altura
Nos teus braços
Meus miradouros do mundo
Meus caminhos de ir e vir
Meus Sítios de estar e de ser
Cinza e labareda
Flor, pó e pedra
E esta fome de distância
Esta sede de chegar
Ao âmago de ti.
Onde queres o negro da noite
Estojo das mais belas estrelas?
E o meu olhar a arder
Como lembrança de outros voos?
Diz-me de que fonte é a água
e o céu que te apetecem.
Mar de estrelas
infinito constelado
e eu contigo a meu lado
homem
e nú
sedento como areia
num deserto
E a tua água tão perto
Aposta a vida num momento
mistura gozo e tormento
no amor que só é eterno
porque dura todo o tempo
em que cegamos para os outros
Desamparo
As lágrimas como fonte
rio aberto
pranto sereno
submersa a dor sangrada
nos mistérios do peito
na incerteza das mãos
na inclemência com que nos fustigamos
com palavras e uivos
Somos a fusão de corpos exângues
na avidez de um fogo
já extinto
Sentinela do Tempo
Sentinela do tempo,
Vigio o teu corpo
Adormecido
E aguardo por ti
À esquina da aurora
Plena de vida
Para partilhar
Mais que a boca
Beijam-me os teus olhos
Na lisura da manhã
Mais que o corpo
Afagam-me os teus dedos
Sob a coberta de lã
E sem palavras ardemos
Carne, sangue e beijos
Com sabor de hortelã
Ausências
É nos silêncios que a voz me dói
Presa no peito
É nas ausências que a memória
Te representa
Como um marco de fronteira
Para cá a solidão
Para lá terra estrangeira
E pára o tempo
Sempre que te ausentas
Sempre que não estás
É como se as luzes do mundo
se apagassem para mim
E leio-te em todas as páginas
Sei-te de memória
Tu és sempre diferente
Em qualquer história
Entras e sais
Ficas e vais
Voltas na hora do amor
Entre Nós
Entre nós
Os silêncios
São palavras
Penduradas no olhar
Entre nós
O desejo
É o que vejo
À flor da tua pele suada
E sem palavras
Dizemos tudo
Sobre o mar do nosso fogo
Outra Pele
Sinto a luz da tarde
como outra pele
e saio de mim
O gosto é acre
no tempo das promessas
e o ar anil quando arde
no teu corpo
de seda e jasmim
Não leio palavras nos teus olhos
mas sei a prata dos silêncios
e o barulho dos sentidos
Sei que pelo amor
até as pedras
adoçam os gumes
e se moldam à mão
que lhes trava o voo
Pelo amor
sangram as escarpas
seixos e papoilas
Há vermelho nos trigais
