Clarissa M. Lamega
" A minha pessoa, aquela que, pelo menos na minha cabeça e no oco do peito, poderia fazer o mundo desaparecer num sorrisinho tímido acompanhado de um “adoro quando você amarra o seu cabelo desse jeito”, dessa maneira bem besta mesmo. Besta, mas que a falta é capaz de me deixar idiota ao ponto de sentir falta."
"Descobri uma pessoa aonde não procurava, descobri o que eu não queria descobrir de uma forma tão gostosa de sentir. Tudo, tudo, tinha um propósito agora. Vivenciar, observar, rir e ter pra quem contar no final do dia, fazia com que eu nem soubesse quem era a mulher com um buraco no peito de antes. Tão simples e ao mesmo tempo profundo, complexo. Como explicar a atração tão grande, não apenas pela beleza do corpo, mas pelo tom de voz e pelo olhar, pelos traços das mãos e o movimento singelo dos olhos. Sim, me fazia feliz, me fazia pular de alegria, explodir meu peito que não estava acostumado a ter tanto de uma vez só. Eu mal te conheci, e já causava um maremoto nesse porto tão pequeno, que abrigava sentimentos tão pequenos. Mas a alma é grande, o sonho é grande."
"Larguei, corri. Na primeira oportunidade, acabei com tudo, com seu olhar que entrava no meu como se inundasse minha alma de tantas coisas boas, minhas vibrações positivas pra que desse certo, sua risada que me fazia tanto bem, seus jeitos todos tortos e que tanto me davam prazer. Acabei com o que mais me fez sentir viva em tanto tempo. E sinto tanta falta, de uma conversa interessante de alguém que pudesse ser a minha pessoa. Mas eu quero que você escute, escute e entenda, que meu porto era frágil e pequeno demais. Meu porto era pequeno pra tanto que ia ganhar, pra um navio tão grande a aportar. Eu sei, eu sei que abandonei o barco por medo de tentar, por medo de ver a água começar a subir e não ter como fugir mais. Eu sei que se eu não ceder uma parte de mim, não posso mais ter suas conversas e um ombro largo pra encostar. Preciso que você saiba, da mesma maneira, que eu quis muito. Eu quis muito ser a sua pessoa, quis muito que você fosse a minha. Sempre imagino como seria, se eu fizesse diferente, e encarasse a tempestade nesse barquinho construído com nossas mãos tão erradas e sem direção, desde o começo.
Eu sempre tive, e acho que sempre vou ter um buraco no peito. Mas antes, eu não tinha em quem depositar esse caminhão de esperanças que carrego a duras penas. E agora, dedico tudo a você, deixo tudo pra você secretamente. Você, o cara da festa, tão errado e fugitivo quanto eu. Te entrego como um presente, só que é um presente guardado, esperando a ocasião da surpresa. Não vai acontecer, provavelmente. Mas você precisa saber, que existe alguém guardando sentimentos muito bons pra você, existe eu com uma saudade muito boba pensando em você. Não adianta mais querer remendar o que sempre foi torto. E, apesar de ser tão assustador, o meu portinho continua no meu peito, sonhando em ser maior e melhor pra abrigar o seu gigantesco navio."
"Como explicar a atração gravitacional que a sua presença exerce sobre o meu corpo, garoto? Diz a lei que apenas os planetas possuem um poder tão grande, mas eu duvido. Quando você chega perto de mim é quase impossível segurar minhas pernas no lugar, que tremem ansiosamente para caminhar na sua direção. Mas não é só a física que não funciona bem por aqui. A matemática falha e erra tantas vezes, porque se somarmos um mais um (eu mais você) o resultado sempre acaba em um. Então eu apago, tento novamente, e a resposta se repete e me confunde ainda mais. Nossa soma, mesmo tão imperfeita nas regras do mundo, nas minhas contas resulta em certeza absoluta. Amor absoluto.
E o tempo, então? Ahh, o tempo. Quem foi que disse para o Cazuza que o tempo não pára? Eu sinto parar, e eu sei que pára. O tempo pára quando eu sinto o seu cheiro em qualquer canto na rua, quando você me aperta forte nos seus braços. Tudo pára quando você me diz com o olhar tão sereno o quanto me ama, e que não consegue ficar longe de mim. Os segundos são paralisados quando meu celular toca e eu penso que é você, ou quando escuto sua voz baixinha no pé do meu ouvido. O tempo pára toda vez que você pega minha mão, quando te sinto perto mesmo estando longe. O mundo todo pára quando você me envolve e respira forte na minha nuca, e quando você me aconchega no seu ombro. Os segundos voam no meio das nossas risadas, e seguem lentos longe da sua presença."
"Vai lá, é a sua vez. Conte até cinqüenta que eu vou me esconder, como nós sempre fazemos. Mas só até cinqüenta, viu? Porque se você demorar demais pra me procurar, eu vou acabar achando que acabou a brincadeira, e vou embora de vez.
Nós sempre fomos assim, você sabe, uma hora você some, outra hora eu sumo, sem satisfações e só com um nó no peito e cabeça de criança pra justificar. Nesse esconde-esconde do amor, eu nunca sei quanto tempo você vai demorar pra me procurar, e não adianta combinar, eu sei que você vai extravasar o limite. Mas eu nunca pulo fora da brincadeira, meu coração escondido prefere pensar que está na melhor porque ainda não foi achado. Nós revezamos sempre, quem vai procurar ávido do cheiro do corpo do outro, do toque, das mãos, e quem foge, se esconde sem saber se ainda quer insistir num amor sem pé nem cabeça, sem começo determinado nem fim anunciado, sem regra num jogo onde vale tudo."
"E eu me escondi dessa vez, não quero mais desilusões infinitas, chorar e me sentir incapaz de te suportar dentro do peito, de tão grande que você é em mim. Meu coração é pequeno, e seu amor é tão enorme que me deixa cheia por todos os cantos, e no susto da brincadeira, quando você me encontra, ele quase explode de tanta coisa boa misturada. Tudo o que eu espero e quero, todos os meus melhores sentimentos, pulsando por você, esperando por você. (...)
E peço baixinho pra que você me ache, e me segure forte com seus braços enquanto eu tento correr, porque eu sempre corro daquilo que cresce tanto e fica enorme em mim. Eu corro, me assusto, penso que amor demais não cabe, mas quando você me segura e eu sinto o seu cheiro na gola da sua blusa, eu acabo parando e rio, rimos sem parar. Porque aí tudo fica bem."
" Seu rosto tem o gosto meu
Eu sinto falta de uma mão pra apertar, sabe? Não peço mais do que um ombro largo para apoiar a cabeça e braços que me apertem como um imenso laço e terminem enroscados na ponta dos meus dedos. E passar horas e horas assim: só no nosso cantinho pra tirar um pouco a cabeça do mundo. No ritmo do mundo, do semáforo aberto que faz pulsarem os carros, do escritório, do documento atrasado, da hora marcada, eu adoro perder a hora com a cabeça enconstada no seu peito. E seguindo apenas o ritmo do seu coração pulsando. Nada de carros, papéis atrasados ou tempo; e me perco e me embalo e fecho os meus olhos e escuto o "tum tum, tum tum". Forte. É a única força que acaba com o peso do dia, e de uma quarta-feira enjoativa e apressada. Por um instante, é eu e você, tudo borrado pros lados, pro meio, pra cima e pra baixo, tudo vazio e sem sentido. O que importa é saber que seu coração tá forte por mim, que ele bate ritmado e grande para que continuemos apertados um contra o outro. Nós contra o mundo.
E de olhos fechados, sinto o calor do seu peito me deixando leve, seu braço que escorre seguro ao longo do meu inteirinho, até o finzinho, seus dedos que acariciam as costas da minha mão como se fosse a tarefa mais importante e bonita que poderia existir. Me entrego ao seu ombro largo feito pra uma cabeça lotada dos problemas dos últimos dias, que saem voando sem dar satisfações quando sentem sua grandeza de homem. Assim, com a cabeça inclinada, sinto um suavíssimo e delicado beijo dado com carinho e total atenção na minha testa, um beijo demorado e uma mão grande e desastrada de homem que assume sua forma mais sutil ao tentar recolocar uma mecha de cabelo fugitiva atrás da minha orelha.
Nós somos fortes e grandes assim, e temos o melhor dos sentimentos ao nosso favor. Escuto sua respiração calma e tenho certeza absoluta que te tenho todo pra mim naquele instante. E espio por um olho, vejo seu rosto tão sereno desejando apenas continuar ali por mais um tempo, ao mesmo tempo em que meu corpo e minha alma querem te devorar e tirar um pedaço e guardar dentro de mim. Quero um pedaço disso que eu não sei o que é, mas que parece tão bonito quando você me dá. A melhor parte do meu dia, ninguém pode roubar. Eu passo meus dedos entre os seus cabelos de anjo e beijo a sua buchecha com aquela sua barba que eu tanto gosto e que me espeta, e quero te roubar só mais um pouquinho pra mim. Passo meus dedos finos fazendo o contorno por entre os seus, e quero que o amor nunca acabe. Somo nós, ali, contra o mundo. Mas agora deixa só eu encostar mais um pouquinho no fortinho do seu peito."
"Quero te expelir de mim. Quero te jogar no mundo, te vomitar todo sem ficar com nenhuma parte sua aqui dentro. Quero que você vá embora agora, quero que você saia por essa porta. Porque agora eu já me abasteci dos teus charmes e erros e do cheiro de shampoo no seu cabelo, e já passei a mão na sua nuca, já beijei com verocidade sua boca repleta de mentiras e desapegos, já te engoli inteiro dentro de mim. Te cheirei profundamente como se conseguisse me drogar do seu perfume, te mordi em pedacinhos e te arranquei sorrisos que derretiam meus ouvidos. Te peguei, te possuí, me abasteci, me preenchi por todos os cantos de você e te enchi dos meus mais suculentos ardores. Me droguei de você.
Mas vá embora agora, porque te sinto pulsando em todas as partes do meu corpo e acho que estou ficando maluca. Seu efeito em mim é muito mais do que alucinógeno e realmente me faz passar mal. Me deixa com o gosto dos seus beijos mal resolvidos querendo se apagar dos meus lábios, confunde meus sentidos e me deixa tonta, me faz querer te jogar pra fora de mim. Minha abstinência já passou, pode ir embora agora. Mas peço ferozmente, como quem gosta de brincar com fogo, outra dose de você mais tarde."
"Quero me sentir viva por cada instantezinho sequer, quero tomar banho gelado e sentir a água invadindo cada pedacino do meu corpo, quero sentir no peito a dor de te gostar com meu maior mazoquismo saudável. O único que me faz bem, que me faz sentir que vivo, que grito, arrombo, respiro, sorrio e vivo.
Quero beijar seu pescoço e te morder seus lábios sutilmente e com verdade, quero te fazer morar dentro de mim com o maior conforto que meu peito pode oferecer, quero te abraçar com meus braços tão apertados ao redor do seu corpo que te faça sentir meu coração batendo acelerado e louco. Quero te deitar no meu colo e brincar com seu cabelo curto. Quero sentir isso que é mil vezes mais mais emocionante e verdadeiro que qualquer outra mudança radical na minha vida. Quero te ter, quero que você me ensine a sentir e a me sentir viva só respirando na minha nuca e rindo do meu arrepio instantâneo. Quero a vida que só você pode me dar, quero te sentir aos poucos e guardar na cabeça e no coração as mil coisas misturadas que você me faz sentir por segundo.
Por isso, quando digo que quero sentir, que quero viver, não se engane com meus rótulos de quem tem tudo e quer mais um pouco: eu trocaria todas as minhas falsas posses e todas as minhas poses pra você me gostar como eu te gosto todos os dias."
"Mas meu trem tem pressa, passa de estação em estação e não se cansa de correr. Quando ameaça marcar fundo demais, causar qualquer indício de futura dor ou intensidade na minha vida, apelo logo para a saída de emergência, get out, sem dar trela nem chance de algo bonito vir a acontecer."
"- Eu não gosto de você, eu te amo - ela queria falar - Eu te amo tanto que chega a faltar espaço pra mim dentro de mim. Falta ar, falta você comigo, falta espaço dentro do abraço. E você me dói bem dentro do peito. Te amo tanto que escreveria isso num outdoor bem em frente à janela do seu quarto, pixaria essas palavras nas ruas por onde você passa todos os dias, invadiria o Jornal Nacional pra te deixar um recado ao vivo ao lado do Willian Bonner e da Fátima Bernardes. Se eu pudesse, te entregaria o Oscar, penduraria uma faixa com o seu nome entre os braços do Cristo Redentor, seqüestraria um ônibus inteiro e dirigiria até a sua casa. Pularia de bang jump gritando 'te amooooo' durante a queda, te escreveria uma música, te daria uma estrela em pacote de presente. Olha, eu te gosto tanto que te descreveria o sol se pondo enquanto beijo seus olhos fechados dormindo no meu colo, iria até a praia agora mesmo e te buscaria uma estrela-do-mar, procuraria uma pedra em forma de coração pra guardar seu nome. Te amo tanto que me dói inteira, mas ao mesmo tempo me faz tão feliz enquanto te penso na hora de ir dormir. Por você iria até a África e me fingiria de nativa, te levaria aos lugares mais bonitos do mapa, te cuidaria do nascer ao pôr-do-sol. Te amo tanto que gritaria isso no meio da Avenida Paulista, correria no meio do centro vestida de coração, me guardaria pra você todos os dias da minha vida, te mostraria o céu e o inferno. Te amo tanto que te dou boa noite e acaricio seus cabelos todas as noites antes de dormir, mesmo sabendo que tenho só bem dentro de mim."
" Inside
Descrevo nessa carta não só as tuas mais belas formas, como mais perfeitas linhas que me fazem girar e me embaraçar nos teus fios. Você me confunde, me surpreende e me tira o ar tudo ao mesmo tempo. Não sei, realmente não sei o que é melhor do que me perder o cheiro do seu moletom jogado no meu colo enquanto te vejo jogar futebol com seus amigos. Me agarro no seu perfume e inspiro; respiro - assim está melhor. Uma dose de amor sua me deixa doida para o resto do dia enquanto deito no seu colo escutando uma música que combine com nós. Somos tão tortos e errados e ao mesmo tempo não sei dizer o por quê de eu querer que você seja o mais certo - certo pra mim, certo na minha vida, certo nas tuas frases feitas. Quero que você obedeça a minha intuição e reme contra a maré, reme comigo e destrua todos os monstros do oceano que querem me amedrontar. Faça isso: mostre que é você. Particularmente, nunca acreditei em príncipe, e sei que você não é. Mas mesmo sem cavalo, sem castelo nem dragões pra enfrentar, eu acredito que você seja o mais próximo de um príncipe que eu já tenha conhecido. Volto a reforçar que toda essa palhaçada de príncipe não passa de mera bobeira pra meninas se encantarem, mas se você acreditar comigo, adoraria fingir que existe. Eu poderia até ajudar a matar os dragões e enfrentaria reinos inteiros pra você vir comigo. Mas me contento quando você segura meu rosto e me olha profunda/serena/apaixonadamente nos meus olhos. E aí já desisto de tudo: quero que as coisas sejam assim mesmo, com musiquinha cantada no pé do ouvido e carinho dedilhado pra dormir. Quero tua voz pra escutar de olhos fechados e poder dizer 'amor amor amor' mil vezes seguidas. Te curto desde o fiozinho de cabelo até a ponta dos pés. Te digo palavras doces em pensamento e torço pra de alguma maneira - desconhecida e sobrenatural - você me ouvir por dentro. Porque, se você prestar atenção, vai ouvir o som que fazemos juntos. Dance comigo, entre no ritmo, esqueça os detalhes. Come on. Te digo isso cochichando encostada no seu peito, pertinho do seu coração pra ver se ele me entende. O que conta é que agora, quero me afundar nos teus mistérios e te sentir bem fundo em mim. Como sempre deveria ter sido."
"Lá está você, com toda a sua onipresença me seguindo enquanto eu vou ao mercado, atravesso a rua, corto o cabelo, paro para ler em uma praça, atravesso a rua distraída, assisto tevê num imenso sofá vazio. Pelo menos, gosto de pensar que você está comigo. E se faço um bolo, lembro do dia em que você melou os dedos no chantily do bolo de mercado e lambuzou meu nariz, minha boca e meu rosto. Aí eu lambuzei o seu, feito duas crianças. Tomo café e lembro sua preferência: só com leite. Mudo os móveis de lugar, redecoro a casa, apareço nas festinhas dos amigos e nada enche esse vazio no peito."
"Lembrei do dia em que chamei seu irmão de "docinho" no telefone, pensando que era você, e da vez que gritei com você pelo telefone e logo depois bati à porta da sua casa com o urso que você me deu debaixo do braço e chinelos, pedindo para dormir com você. Assisti o filme que vimos no cinema no nosso primeiro encontro, vesti seus chinelos tamanho 42 por um dia inteiro, tirei sua blusa (que você esqueceu comigo) do guarda-roupa e deixei seus cheiro se misturar com o meu. Chorei um pouco lembrando do último beijo e da última vez que passeamos de mãos dadas, das brigas intermináveis e da última palavra. Chorei lembrando que fiquei com o telefone no ouvido escutando o "tu tu tu" depois de você ter desligado. Passei na frente da sua casa, fiquei parada um pouco vendo as luzes dos cômodos se acenderem e se apagarem, fui embora. Lembrei de quando você me aninhou na rede, lá na praia, e cuidou de mim quando eu me gripei e fiquei de cama. Comprei o sabor de sorvete que você gosta e comi sozinha assistindo um filme deprê. Li umas revistas que você achava a maior bobagem do mundo, escutei a "nossa música" no repeat do rádio. E sabe de uma coisa? Nada que eu faça vai diminuir a dor da perda, então quero mais é sentir cada milímetro de você dentro de mim. Dói sim, é difícil sim. Mas te lembro e te curto em cada detalhe do que ficou: desde uma meia embaixo da cama até uma frase sua cochichada no pé do ouvido. Sinto você perto de mim todos os dias, e sei que foi bom o que passou. Mesmo longe, pensa em mim também, tá?"
"Somos complexos, difusos, amantes desconfiados. Estamos em um jogo de pôquer, aonde o disfarce é o que decide a partida. Saiba esconder tuas verdadeiras cartas e sairá vencedor - é o que dizemos a nós mesmos. Mas o amor, esse não é um jogo de mentiras. Os dois lados perdem. Difícil é fazer entender a mim e a ti o que só o tempo mostra: a verdade, por mais que doa, é quem reina. A verdade machuca, rala, faz ferida, mas cicatriza. E deixa experiência, compaixão e até mesmo o perdão. Eu minto que não quero te ver, não hoje, não agora, e corro pro banheiro derramar litros de lágrimas. Você prova de outras bocas que não sejam da minha, e finge a maior felicidade do mundo. Jogamos palavras falsas no ar, discutimos quem é o certo e quem é o errado, sabendo que não existe nem um e nem o outro."
"Sei a maneira como você se senta e como age quando está nervoso, sei das tuas caras e das suas máscaras. Sei como você é de verdade, longe dos amigos machões e de toda a pose imposta a você. Sei que quando estou perto de você, você gosta de sentir o cheiro do meu cabelo, de leve, mas finge que não. Eu pego suas fotos e te sinto profundamente em mim, te escondo como criança debaixo dos lençóis pra ninguém ver o tamanho do meu amor. Amasso, dobro, aperto meu amor pra ele caber em uma caixinha minúscula, sendo que ele poderia ocupar o espaço do planeta inteiro. Quero que ele seja menos amor, que seja menor e mais desprezível do que realmente é. Quero colocar ele embaixo da cama e fingir que não existe, jamais te deixar vê-lo."
"Queria poder chegar bem perto de você, e olhando bem fundo nos seus olhos estonteantes, questionar quase silabicamente: "vo-cê-me-a-ma?". Pois eu te amo. Sem mentiras, desta vez. Sem máscaras. Um príncipe de mentira, com castelos de mentira, a gente consegue suportar na boa. Mas uma história de mentira, um amor construído por palavras e jogos sujos de mentira, não."
"Minhas palavras machucam, são cuspidas para as pessoas todas do mundo, são jogadas sem medo, como se eu fosse um dragão ou qualquer outro ser que precisa ferir para viver. Nem ao menos faço de propósito: te juro que seguro ao máximo minhas frases e palavras plenas de sentimentos misturados, mas elas me queimam inteira por dentro, e preciso jogá-las para fora de mim. Ferem a mim, aos outros e a ti. Sou um dragão, bicho feroz por natureza, sem intenção de machucar porém incumbido de fazê-lo.Meu fogo arde e queima, e já se tornou comum ferir. Meus defeitos me fazem inteira, plena, e ao mesmo tempo me destroem. Sou bicho arisco, toque com cuidado, me segure da maneira certa."
"Não acordo cedo, então não me peça para acordar com meus olhos te vigiando. Eu sei, é romântico e gostoso, talvez vez ou outra eu te surpreenda assim. Demoro para levantar da cama, me espreguiço e continuo deitada por um bom tempo ainda. Cozinho bem, mas em raras ocasiões tenho vontade de preparar um jantar especial. Fico de pijama até depois do almoço, normalmente, uso minhas pantufas cor-de-rosa com lacinhos sem pudor algum. Não espere uma reação imediata minha: tenho o desastroso defeito de demorar a analisar o que sinto. Penso, repenso, toco, viro, abro, especulo por dias para resumir em gosto ou não. Não me peça pra apressar meu tempo, apenas let it be, deixa ser. Tenho a maior calma do mundo, porém não me intimide errando várias vezes no mesmo ponto - finjo que não, mas sofro calada e acumulo tudo por dentro. Tenho medo de acumular minhas fraquezas e jogá-las em você, então apenas me abrace forte pra eu me recuperar e me acalmar no cheiro da sua nuca. Decodifico expressões, mãos e olhos e muitas vezes dou suposições ciumentas e erradas, te julgo mal por pensamentos que me enlouquecem. Meu ciúme pula na cabeça e amarra minhas mãos, me deixa brava e chorona. Cuspo palavras, firo, e me arrependo em seguida. Perdôo facilmente, mas não pense que esquecerei. Tenho um coração gigante, aonde o ar que circula é puro amor, mas que não se entra tão fácil. Tenho receio da entrega, do presente, mas se você persistir, conhecerá o meu mais íntimo."
"Cuidado aonde toca, nao quebre nada, nenhum elo ou confiança, entre com sutileza. Tenho medo do que desconheço, mas a partir do momento em que te deixo abrir o portão, girar a maçaneta da porta, me dou de corpo, alma, coração. Agüente firme, no começo parecerá uma enchurrada de sentimentos, coisas bonitas e outras nem tanto, sede e querer mais, mas logo acostuma. Tenho pavor, e ao mesmo tempo essa fome insaciável de amor, de bem-querer. Entrego minha confiança total, mas ela também é retirada facilmente. Não sei mentir, muito menos para agradar. Não te confiarei nada que eu pense que você não suportará. Não sou muito tolerante, cometo erros por medo, e às vezes fujo também. Corro para longe e ataco com minhas sujeiras e palavras de fogo."
"É difícil se equilibrar quando o medo de cair toma conta. Quem sabe, nem rede de segurança me aguarda lá embaixo. Concentro todas as minhas forças em continuar, lentamente caminho na corda que balança sob meus delicados pés - que ainda possuem tantos passos a dar, em tantos lugares diferentes. Surgem imensos problemas durante o percurso, aliás este que visto de fora parece tão curto e simples. Mas ser bailarina e topar com estes problemas não é mole, não: faz tremer as pernas, querer largar aquela vara e voltar correndo para quando não existia nada daquilo. Respiro fundo, então, ajeito a saia, recomeço com calma e cabeça erguida, avanço."
"Tudo ao redor virou câmera lenta, o sol da tarde brilhando entre as folhas das árvores, e um cara de pé que olha nos meus olhos e me deixa sem reação. Primeiro que, só pra te avisar, sou eu quem faz esse lance de olhar fundo nos olhos, então senti minha arma virada contra mim."
"Caí na rede, entrei numa magia momentânea gostosa e jamais experimentada. Senti um arrepio atravessando o corpo quando seus olhos azuis claríssimos apontaram para os meus. Me lembrou uma piscina, com a água quase transparente. Parecia que sua menina dos olhos era o ralo da piscina, sugando meus pensamentos, minhas ações e me deixando sem rumo."
"Minha vontade era de mergulhar com unhas e dentes nos seus olhos de águas azul-claro, ondas pequeninas, e ficar morando por lá. Me inquietava, e ao mesmo tempo transmitia uma paz surreal."
"Saí de lá e sentei em um banco, com a sensação de que havia aspirado o máximo de ti, e deixado também o máximo de mim."
