Carolina Pires

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Depravados.

E foi quando seis corpos de pecado uniram-se no mesmo quarto transpirando perversidade em gotas. Ali, naquele ambiente abafado de tanto suor cítrico, os seis, ou pelo menos três dos envolvidos, revelaram-se no mais ardente, íngreme desejo.Tornou-se ciclo vicioso.

Ácidos.

E obtive sede de sangue. Parada em degraus gastos arrepiei-me ao sentir a loucura escorrendo em minhas veias. Olhei aquela carcaça imunda que exalava inveja por todos os poros e percebi minhas garras alongarem-se em direção àquela jugular. Eu a mataria, juro que mataria, apenas por despeito.

Segundos.

Vem, beija-me a boca, rasga-me o peito, trague meus anseios, mas venha. Fique comigo, derruba-me no leito, envolva-me nos braços, mas fique. Sinta meus lábios, corte-me com os dentes, puxe-me para perto, atrele seu corpo ao meu, mas sinta. Esquente-me. Me despida os trajes, sinta a minha, a tua, a nossa nudez. Respire ar, perfume, suores. Exale desejos, prazeres, deleites, encantos, paixões... Só por essa noite.

Banho de água gelada.

Abrir os olhos e ver que o sol já não ilumina a janela como outra vez, que as rosas não são mais tão galantes, que os tornozelos já não me amparam mais. Ver que as pimentas já não são mais tão picantes, nem mais tão vermelhas, que aquilo que fazia diferença parece estar me deixando para trás. Perceber que o ciúme é o inimigo dos mortais e que não vale à pena doar-se tanto por quaisquer amores.

Pimenta.

Beijar-te-ei a nuca
Morder-te-ei os lábios
Acariciar-te-ei a tez crua
Provar-te-ei meu amor com os mais afrodisíacos versos.
Ter-te-ei de corpo inteiro, pleno.
Odiar-te-ei até amar, íntegro
Mas amar-te-ei eternamente.

Rouge.

Algumas gotas de álcool, um buquê de rosas vermelhas, um arrepio e pensamentos incontroláveis. Vulnerável, inteiramente fruto dele, prestes a ser tragada em poucas rasgadas. Alguns risos, confidências, beijos, carinhos, abraços - e amassos, deve-se confessar. – E seria tão banal obter tal frêmito com versos ácidos ao ouvido e carinhos no cangote rasgando-lhe a garganta com um gosto de primeira vez, mas com receio de extrema, final, tornou-se um ciclo, permanente, onde só o que o importa é o deleite da carne e não os sentimentos nela submersos. Eles, devassados, compartilham o mesmo teto, saboreiam do melhor vinho, fel, transmitem calores incansáveis e adormecem exaustos, apenas sabendo que o inferno é o máximo.

Mortificando.

- Ninguém mede a desmesurada fome que de ti tenho. A indigência, gosto aturado de vestir minha nudez e entreter minha pele junto a tua até suar por todos os poros.
- Mas esses seus pseudônimos, deixam-me cada vez mais confuso, não sei o que queres. Às vezes acho que de mim só queres meu corpo cru, para colocar em prática a sua literatura. Usas-me somente para diversão para depois deleitar-me em seus braços derramando seu veneno e perfurar-me o íntimo com a adaga posta em sua mão, outrora suave.
- Se minto é pra me esconder da solidão, tenho medo de machucar-te e sei que o farei caso o omitido tornar-se público. Medo de mortificar os que eu amo, os que pensam que de mim jamais sairá a incoerência, aqueles que pensam que serei eternamente pura. Infelizmente não consigo desfazer-me da minha segunda face, sou uma mentira.
- Eu passava muito bem sem ti que se tornou devassidão, meus olhos ardem ao encontro dos seus, vício. Tenho que ir.
- Por favor, não vá! Fique eternamente junto a mim, meu corpo atrelado ao seu, formando um só. Se o que queres é que eu mostre meu verdadeiro eu, assim farei. Abrirei a janela, subirei ao palco de braços abertos e confessarei ao mundo o meu apego por ti.
- Não gostaria de alimentar demasiadas ilusões. Não consigo dizer que é isso o que aspiro. A sensação de obter um caso impensado por mentes alheias estremece minha alma, aflige meu peito e domina minha mente até fundir-me no eco das mentiras.
- A lua era a testemunha mais vulgar quando versamos pela primeira vez aquele strip-tease às avessas, frenético, delirante, hoje, absolutamente depravado.

L'avenir.

Éparpiller le poison.
Disparaître comme fumée en l'air.

Vaidade.

Um espelho, Narciso.
O mais grave dos sete pecados.
Atrair atenção, atrair olhares teus.
Cobiça. A vaidade quer aplauso.

Gula.

Engulo as falas tuas
Devorando-as nas entranhas minhas.
Cortando-me com olhos teus
Dominas-me, refreias a pele minha.
De ti sinto sede.
De mim sentes fome.
Sentimos e sentiremos;
Gula.

Luxúria.

Meus olhos ardem. É a fuligem do pecar, atacando minhas vistas, pupilas dilatadas. Eu adoraria aprender a parar de me deixar induzir pelos encantos da carne. Algo dentro de mim pesa feito rocha, arde. Queima por dentro e por fora; gélido.

Quimeras.

E sentiu-se refratada. Casta - inocente, não de corpo, de alma - a quaisquer ditos, cálices e cobiças. Só respirava conforme o vai-e-vem daquele peito uma vez ansiado, imprescindível, hoje, quase esquecido; vôo. Pudera ela entregar-se de braços abertos e dizer-lhe “aqui, sou tua” para enfim, poder sentir o prazer de ser devorada pelo desejo mais íngreme, novamente. Aquela pele tênue ainda tinha dono, o único com direito de tocá-la pela imortalidade. Anseio árduo, enternecido, não se distrairia mais com aquela sensualidade, devassidão, luxúria fria de breves apalpadelas, o abstrato. Talvez até por uma leve confusão ela dissesse que desejou mais um, quiçá pela carência que sentia do mais adorado. Cogitando oferecer-se à brasa, encontrava-se eufórica. Ela à expectativa, ele, agora, alforriado. Ela dele, ele dela e assim seria, sempre.

Golpe.

Aquele álcool que viajou por minhas veias, retardou meus reflexos, fez-me deliciar nos graves braços do ignorado que me beijando os lábios calou-me as palavras. Larguei por distração. Ouso dizer que algo me prende onde não deveria. O odor de fumo encravado em meus fios de cabelo relembra-me do instante em que virei deixando marcas de batom; joguei-me de cara aberta, sem minha espada e armadura, pensando no ineficaz, abocando em mim uma cobiça daquele corpo, desejo frígido, consternação, com uma breve pretensão de assassinar, trucidar por despeito. Sinto-me obtusa.

Pôr-do-eu.

Desejava braços seus,
Envoltos em braços meus.
No sobe e desce do sopro
Quem deitava no peito dele era eu.
Pele, corpo, ele, meu.
Boca, pêlos, dentes, teus.
Abro os olhos, tudo muda
Olhos, língua, carne crua.
Tudo que queria antes tinha,
Tona tua não mais minha.

Hausto.

Em meio a murmúrios de versos abafados pelas gargalhadas, encontro-me, minúscula, debilitada por uma hipnose descuidada. Olho a minha volta, melancólico júbilo, ecoei sublimemente, refleti afastada. Egos, ostentações dispersantes, rompidas.
Eu, outrora entusiasmada por mãos robustas, pujantes, vigorosas, já amei servilmente, estoicismo era minha dita muda. Hoje não, apenas desejo, ambiciono o acesso dos encantos vedados, um desses cujo desdouro possui a mesma fórmula intensa que o rosto de um idiota.
Vou pra casa descansar. Deleitar-me-ei, beberei, traçarei o rum aos grandes tragos.

Ser meu, ser teu; ser sua.

Ela ampla, ela acanhada, ela oscilante, de fato palpável. Olhara da vidraça por inúmeras vezes e dali insignificância avistava. A névoa que a fuligem do cigarro apoiado em seus dedos provocava, cegava seus olhos intensos, impedindo com que notasse o que permanecia ali, em sua frente. De boca em boca, encontrava-se alagada. Fumo, licor, rubro, membro contra membro. Obscuridade, vivacidade resistente dos braços seus, fascinados com braços apetecidos. Imergir em corpo ilhado em cabelos, saliva em contato; as línguas permutadas. Depois não quer, agora diz: seres meu, meu corpo teu; enfim ser sua.

Ignóbil.

Pouco a pouco despedaço, descalços, teus desnudos calcanhares, nus. Abominável, aborrecível, desprezível, detestáveis, crus. Abocanhado, dilacerado, atassalhado corpo vil, por tua tona execrada de desejo varonil.

Intacta; para ele.

É tudo o que lembro, estávamos com pressa, o momento era de pura diversão e o álcool retardou nossos reflexos, só queríamos ir para a outra festa. Música alta, ele, perfeito, no volante e eu no banco de carona. Paramos no sinal vermelho e começou a tocar o refrão da nossa música. Beijamos-nos, o último beijo e eu ainda posso sentir seus lábios nos meus. Em meio a braços e abraços escuto uma buzina, abro os olhos, farol alto, um caminhão. O sinal ainda estava vermelho, eu juro. A culpa não foi minha, não foi dele, somos inocentes.
Acordo como se tivesse passado apenas uma noite, deitada em uma cama de hospital, o barulho dos aparelhos médicos me irritava e ao mesmo tempo uma pessoa chorava e gritava:
- Ela acordou! -... Era minha mãe.
- O que houve?
- Você estava em coma por três meses e graças a Deus acordou.
- E o Felipe?
- Acho melhor você ver com seus próprios olhos...
... E fui. Corredores, macas, pessoas passando mal e eu tinha acabado de ganhar a vida, novamente. Branco, tudo branco, frio e um aroma de remédio no ar. Hospital, como eu odeio. De longe vi o quarto 154 e o meu amor a dormir. Ao entrar naquele recinto vi enfermeiros controlando os aparelhos e me pedindo pra manter silêncio. O desespero começou a afrontar-me e, desesperada perguntei como ele estava e se voltaria logo pra casa. Nada. Disseram-me que estava em estado vegetativo e não respondia a sinal algum. O caso era grave. Ainda me recordo do pranto. Eu queria vê-lo, senti-lo nem que por um ínfimo instante qualquer. E lá fiquei.
Felipe após voltar a falar, sabendo que nada mais traria sua vida de volta, ciente de que sobreviver artificialmente estaria prejudicando tanto a ele tanto a mim, pediu para que eu desligasse os aparelhos, acabasse com meu último fio de esperança e oportunidade de sentir seu cheiro. Pior decisão de minha vida e o “eu te amo” mais sincero. Desliguei.
Hoje, a saudade é grande, não resisti. Três anos depois, ainda me recordo bem, foi o dia em que, pela segunda vez, eu morri.

Vestígio.

Os olhos manchados de ontem; pele ainda dormente; cheiro de cigarro impregnado nos cabelos. Aquela música continua em meus ouvidos. Desconhecidos, e eu, desconhecida; Deus do céu, onde é que eu fui parar? Após cometido, sinto-me presa ao indesejado. Tirai-me da ilusão.

Provocante deletério.

Nada ignorante escreve com a mesma naturalidade de quando fala com aspecto de falsidade olhando nos olhos dos que descobre que a detestam. Falta de criatividade, meras reproduções e egocentrismo. Risos. Cartadas, olhares, sorrisos. Os dados ainda estão rolando, cabe a ela determinar o momento em que eles devem cessar. Ruído enjoativo, caráter altamente exclusivo. Falta de traços típicos, nela não há. Presença fútil, insegurança dos desafiantes. Como ela se diverte...

Diálogo de fim.

- Suma da minha saudade!
- Mas vivemos tão pouco...
- Preciso digerir a falta.
- Faço-te a mesma falta que me fazes?
- Eu não queria precisar me repetir.
- Sinto falta da tua constância.
- Não te toco mais, por nojo.
- Não te toco mais, por covardia.

.

E eu que pensava que jamais me domaria por quaisquer olhos azuis.

Oco.

Sonhei contigo esta noite, aqueceu-me. Senti sua falta ao acordar, esfriou-me. Pus-me a roer as unhas.

Curva dos S.

Singelamente poder dizer-te amor.
Singularmente poder sentir-me tua.
Separadamente de outrem ter meu peso sobre ti.
Supinamente repartir do mesmo devaneio.
Simplesmente eu, inteiramente você.

Nuance.

Touché. Naquele ínterim ela concluiu que aqueles cachos negros caídos sobre a testa dele já não a cegavam mais, era tudo tão burguês, trivial e tornou-se transitório de extrema repugnância. Coxeou, e entre calúnias e mentiras, numa única objeção desvendou tamanha rispidez que ele carregava sobre as costas. Colapso. Sempre tão soberbo, presunçoso e ostensivo, após ser desmascarado, encontrava-se iminente, exposto, fraco, literalmente vulnerável. Aquele sentimentalismo rasgado existente entre um casal... Ahn, desgaste. Físico e moral. Aquelas calcinhas e sutiãs perderam a elasticidade e as cores ofuscantes. O relacionamento tornou-se bege. Au revoir!

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