Carlos Alberto Rodrigues Alves

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UTOPIA
Um dia, a paz e a justiça
coroarão nossos belos mundos sonhados
Um dia, a paz e a justiça
se beijarão como eternos namorados
Um dia, a paz e a justiça
sepultarão os mais temidos arsenais
Um dia, a paz e a justiça
serão as ternas verdades finais
Um dia, a paz e a justiça
tirarão de nossos lábios a palavra guerra
Um dia, a paz e a justiça
brindarão este nosso céu chamado terra
Um dia, a paz e a justiça
exterminarão as feias faces da fome
Um dia, a paz e a justiça
serão de todas as nações , o novo nome
Um dia, a paz e a justiça
irão celebrar, alegremente, nossa utopia
Um dia, a paz e a justiça
farão nascer da noite escura, o sol do novo dia.
Parece incrível, mas isto pode acontecer
a partir de cada um de nós.

Carlos Alberto Rodrigues Alves

ORAÇÃO PELA TERRA
Agradecemos-te Senhor,
Pelo nosso pequenino planeta terra
Que tu fizeste azul para espelhar o céu,
Pela energia viva que dele emana
E pelas primaveras que, deveras,
Veraneiam os invernos de nossos outonos.
Entristecemo-nos Senhor,
Pela fumaça profana que faz arder este santuário
Pela crueldade fétida impingida aos rios e oceanos,
E pelos desertos áridos tornados terras malditas.
Ajuda-nos Senhor,
Em nome do arco-da-íris do nosso olhar,
Em nome dos animais que ainda pastam solenemente,
E em nome da nuvem que navega no vento,
A trabalhar como irmãos do Sol e da Lua
Para que toda a natureza volte a ser o rosto risonho de Deus.
E assim,
Quando voltarmos um dia para o seio da mãe-terra,
Pois de lá viemos e para lá retornaremos,
Possamos nós ter deixadas vivas a esperança e a saudade
De quem buscou constantemente o novo céu e a nova terra.

Carlos Alberto Rodrigues Alves

PRECE AO PAI

PAI, na paixão maior, no céu eterno
nos geraste e nos acalentaste
ESTÁS NOS CÉU do sol e da lua, do chão e da rua
SANTIFICADOS sejam teus braços
que entre abraços
faz-nos de seres solitários teus seres solidários
VENHA A NÓS O TEU REINO
presente em nossas saudades e utopias
carentes de afetos e de alegrias
SEJA FEITA A TUA VONTADE
de Pai que se apaixona
que se alimenta da ternura mãe que se emociona
O AMOR NOSSO DE CADA DIA
faz-nos viver tão terna e eternamente
no corpo, na alma e na mente,
dia-a-dia infinitamente
E NÃO NOS DEIXES CAIR EM TENTAÇÃO
de fazer qualquer coisa sem paixão
sem ouvir as razões do coração
MAS LIVRA-NOS DO MAL
da omissão, da apatia e dos desencantos
da opressão, da antipatia e dos horrores tantos
POIS TEU É O REINO
Do Bem, do Bom e do Belo
O PODER
que dá vida e para a Vida nos convida
E A GLÓRIA
que entre tantas lutas inglórias
faz-nos serem tuas nossas histórias
para sempre e sempre

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE A FELICIDADE NO CASAMENTO

Escrevi e tenho dito nos casamentos aquilo que chamo de os Dez mandamentos de um casamento feliz. Não é receita, é um projeto de construção da felicidade no casamento. Amar pode e deve dar certo.

Sejam sábios: Nunca se irritem um com o outro ao mesmo tempo.

Sejam inteligentes: Lembrem-se que quando um não quer, dois não brigam.

Sejam gentis: Jamais gritem um com o outro a não ser que a casa esteja em chamas.

Sejam amigos: Se um tiver que ganhar a discussão deixe que seja o outro.

Sejam honestos: Se cometerem um erro reconheçam e peçam perdão.

Sejam companheiros: Se tiverem que criticar que seja para somar nunca para dividir.

Sejam positivos: Não remoam erros passados. Águas passadas não movem moinhos.

Sejam criativos: Inovem sempre, namorem sempre, fujam da mesmice sempre.

Sejam amorosos: Pelo menos uma vez ao dia digam ao outro uma palavra de carinho.

Sejam bons amantes: Nunca durmam com mágoas. Por que perder uma noite de amor?

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE O ADEUS A MEU PAI ZITO

" Se queres viver bem, pensa na morte" Monges medievais


Meu pai foi embora...Mas ainda estou a ouvir a voz do meu bom e velho amigo. Agora não mais da janela do seu quartinho, onde sempre ele esperava a próxima brisa benfazeja. O cenário é outro, mas ainda sua sabedoria paira no ar. Quando a sua voz calou com a morte, seu coração seguiu falando. Ouçam:
“ A vida é uma tentativa, às vezes bem sucedida, de se driblar a morte. Tentei de todas as maneiras me manter em pé. Tal como o anjo torto do Garrincha, meu jogador predileto, driblei-a várias vezes...Eu gostava até de dizer, num jeito de brindar a vida : - quebro mas não vergo. Vejo, do alto de uma outra dimensão, um de meus filhos me saudando emocionado, com citações inspiradas pelo Brecht : 'Há homens que lutam a vida inteira, estes são os imprescindíveis.' Agradeço-lhe pois de fato não perdi a garra de viver jamais.
Mas agora , deitado e inerte, sou rodeado de pessoas queridas que choram minha partida. Chegou o momento em que as carrancas da morte se defrontaram cara a cara comigo. Jamais as temi. Pelo contrário, por saber que a morte é uma irmã gêmea da vida, tive para com ela, sempre uma relação de boa vizinhança. Dela escapei várias vezes, dela ri para valer, com ela aprendi sempre. Agora é a vez dela...
Já havia pedido para meus queridos que no meu túmulo fosse colocado este epitáfio: ' Aqui jaz um homem, muito a contragosto'. As pessoas que levam a vida muito a sério jamais compreenderão. Irão dizer: ' está aí um homem blasfemo! Imagine um homem querendo contrariar os desígnios divinos!'. Não é nada disso! O que eu quero é simplesmente dizer que a vida é boa e enquanto não chega sua irmã temos que inventar esperanças para fazer valer nossa passagem por aqui.
Vejam estas pessoas a me rodear. Choram profundamente a saudade. Não a saudade de quem se sabe, que um dia voltará. A saudade que choram é aquela da canção do Chico que diz: ' ó metade amputada de mim...' É a saudade de se arrumar um quarto para o qual a pessoa amada jamais voltará. É a saudade registrada na moda de viola que eu cantava com meus netos : ' a tua saudade corta como um aço de navaia'.
Chorem queridos! Mas não o choro do desespero! Chorem a saudade de quem sempre soube que há tempo de chegar e tempo de partir, tempo de cantar e tempo de prantear, tempo de nascer e tempo de morrer.
Recebo a amiga morte como presente. Embora tivesse ensaiado em me assustar, ela me veio de forma branda, o que me deu até oportunidade de lembrar um verso de Tagore, que deixo para vocês:
' No dia em que a morte bater à tua porta que lhe oferecerás? Porei diante de minha hóspede
o vaso cheio de minha vida.
Não a deixarei ir de mãos vazias...'”

(Para minha irmã Luciana, fiel escudeira de meu pai até o último momento)

Postado por Revº Carlos Alberto Rodrigues Alves

Carlos Alberto Rodrigues Alves

LEITE COM FARINHA

“Bom não é ser importante. O importante é ser bom”

Lembro-me dele como uma presença eucarística. Olhar manso, sempre bem humorado, palavras polidas e politizadas. Era sempre assim... Depois dos cultos dominicais, quando distribuía o pão e o vinho, a gente ia até sua casa onde ele nos servia sorridentemente, leite com farinha.

Isso mesmo, LEITE COM FARINHA...! Um verdadeiro sacramento! Ritual sempre acompanhado de um bom papo, contos, causos e músicas-das-boas! Celebração sincera de quem sempre soube que somos irmãos, não por causa das doutrinas que professamos, mas pelos gestos que fazemos para tornar o mundo mais alegre.
Sacramento é isto. Algo visível que esconde coisas invisíveis...Sacramentos são todas as belas cenas que vivenciamos para saudar um mundo mais belo.
Cenas que ficam na saudade... “ Fazei isto em memória de mim...”

Lembro-me dele como aquele homem de bem que, em nome de uma amizade sincera, ao servir aquele sacramento, também servia-se a si mesmo.Sua história , por ser rica até os extremos da generosidade, não cabe nessas linhas. E, por ser demasiadamente discreto, o bem que fez a tanta gente, ele não me deixaria publicar.

Mas, todos aqueles que respiram o ar de Assis já foram inspirados pela presença benfazeja deste homem, ícone da sabedoria e da bondade.
Para este companheiro que escreve e que não o vê há tanto tempo, restam a saudade de um copo de leite com farinha e a certeza de que " quem é bom, é feliz". Igual ao seu Feliciano, que dia 26 de outubro último, completou 91 anos de felicidade!

(Para Dona Fany, Marisa, Humberto, Fernando e Paulo, com saudades)

Carlos Alberto Rodrigues Alves

O CAFÉ SABOROSO DO ZITO


De uns tempos pra cá adquiri o prazer de um bom cafezinho. E não foi depois de ter ouvido que café faz bem para o coração. Para preservar a saúde tenho outros meios melhores.
Estou tomando o meu cafezinho diário. E não é aquele do trabalho, politicamente correto, mas sem poesia.
Meu café é um café transcendental, razão pela qual, quando posso, vou até os “cafés” tradicionais da cidade para saborear um bom expresso.
Ao contrário do cafezinho do trabalho, sempre funcional, este outro tem uma evocação especial: as lembranças de meu pai.
Como o pai gostava de um saboroso café!!! Ele mesmo comprava a sua marca predileta. Ele mesmo o preparava do seu jeito e o saboreava na sua caneca favorita.
Tenho bebido um bom cafezinho todos os dias. E com o café, as memórias de meu bom pai e suas histórias saborosas.


Carlos Alberto Rodrigues Alves

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SUELY DO ZITO

“Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” M. Quintana
Meu pai:
Como o Senhor sabe, a Suely foi embora também. Pouco depois do pai. Ela não agüentou a “maldita”.
Tentamos de todas as maneiras deixá-la em pé. Valeu a presença dos médicos, dos pastores, das famílias…Mas não deu! O pai tinha razão, ela estava com os dias contados.
Uma vez eu disse pra Suely: “ O pai vai partir antes da mãe”. Acertei! Mas errei ao ignorar que ela iria, de imediato, acompanhar o pai.
Há um ano dei-lhe de presente um belo chapéu francês. A idéia era encobrir as marcas anti-estéticas do seu tratamento. Quando mais jovem ela era tão vaidosa!
Deixo gravadas as imagens de nós três: o apelido carinhoso de “Chó” que o pai lhe deu quando criança, as músicas que a gente tocava para ela e a “visita saideira” em sua casa, quando, sabiamente o senhor lhe disse “ Adeus”.
A exemplo do que fiz em relação ao pai, agradeço a Deus sua partida. Difícil estava sendo vê-la sofrer. A Suely em seu estágio final era o retrato da tristeza.
Agora, livre da dor, ela mora em nossa saudade, com as imagens mais bonitas da vida.
Nadir, Felipe, Taís e Aline, vamos inventar juntos, esperanças pra viver!…


Carlos Alberto Rodrigues Alves

Carlos Alberto Rodrigues Alves

LITURGIA DO NATAL EM TOM BRASILEIRO

PRELÚDIO: Bachianas brasileiras.(H.Villa – Lobos)

PALAVRA DE ADORAÇÃO:

DIRIGENTE: Na bruma leve das paixões que vem de dentro,
tu vens chegando pra brincar no meu quintal
TODOS: Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais
DIRIGENTE: A voz de um anjo sussurrou no meu ouvido,
eu não duvido já escuto os teus sinais
TODOS: Tu vens, tu vens... Eu te anuncio nos sinos das catedrais.

CANÇÃO: Oh! Deus salve o oratório (Milton Nascimento)

Oh Deus salve o oratório...Onde Deus fez a morada...
Onde mora o Calix Bento...e a ceia consagrada
De Jessé nasceu a vara...da vara nasceu a flor
e da flor nasceu Maria...de Maria o Salvador

PALAVRA DE CONFISSÃO:

Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue, que usamos tem pouca tinta.
(João Cabral de Melo Neto)

PALAVRA DE LOUVOR:

CANTO: Luar do sertão (J. Pernambuco e Catulo P. Cearense)

Não há, oh gente, oh não Luar como esse do sertão
Não há, oh gente, oh não Luar como esse do sertão

Oh, que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando folhas secas pelo chão
Esse luar lá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão

PALAVRA DE EDIFICAÇÃO:

Sermão:

Véspera de Natal! Você virá Papai Noel. Com as velhas botas carregadas de lama, com a longa barba ensopada de chuva, trazendo nas costas um saco de brinquedos, alegrias, ilusões...
Você virá a tiritar de frio, trêmulo como um vovô que eu tinha que era manso e bom como você. Sei que você virá de qualquer modo, atravessando os mares insondáveis, as correntes dos rios tumultuosos, e entrará em todas as casas onde houver sapatinhos elegantes esperando nos cantos por você...
Mas sei também que, por trazer a memória cansada, você esquecerá mais uma vez daquelas casinhas pobres que deveriam lembrar-lhe a manjedoura de Belém. Que pena Papai Noel! Você já se esqueceu da noite de Belém... (Boechat)

PALAVRA DE CONSAGRAÇÃO

CANTO: Os devotos do divino ( Ivan Lins)

Os devotos do divino vão abrir sua morada pra bandeira do Divino ser bem-vinda, ser louvada, ai, ai.
Que o perdão seja sagrado, que a fé seja infinita, que o homem seja livre, que a justiça sobreviva, ai, ai.
Assim como os três Reis Magos que seguiram a estrela-guia, a bandeira segue em frente atrás de melhores dias, ai, ai.
No estandarte vai escrito que ele voltara de novo. E o Rei será bendito, Ele nascerá do povo, ai, ai.

Prece final:

Senhor, que os Teus pequenos sinais de vida
Enfraqueçam as grandes pretensões da morte
E que possamos cantar sob mil bandeiras brancas
A paz que traz, o bem que vem!

(Liturgia de natal elaborada por este conselheiro do Conselho Estadual de Educação do Paraná, celebrada em centenas de escolas de nosso Estado, por milhares de alunos e professores que acreditam que Deus é amor ).

Carlos Alberto Rodrigues Alves

JONAS DE ARAGUARI

Poetas, seresteiros, namorados...
Todos vós que assentais junto ao rio Jordão...
Vós todos que salmodiai na embaixada dos papagaios...

Peço-vos licença para algumas coisas:

Primeiramente, para pontear na viola um canto de paz pela vida. Acontece senhores, que nesse primeiro-de-ano que se aproxima, como ocorre há 75 janeiros, um homem-de- bem e que traz em seu nome o sentido da paz, verá mais uma vez seu povo congregado para celebrindar a vida-que-lhe-renasce-todos-os-dias. Por isso peço-vos que anuncieis nos sinos das catedrais que vai rolar a festa na casa da dona Waldete.

“O povo do gueto mandou avisar
Pode vir, pode chegar
Misturando o mundo inteiro
Vamos ver no que é que dá
Tem gente de toda cor
Tem raça de toda fé”


Peço-vos licença também , para registrar no cyberespaço que ele é meu amigo. E isto não por causa da cor da pele, não por causa do tempo que passamos jogando conversa fora e nem tampouco pelas nossas afinidades futebolísticas. Nossa amizade é coisa gratuita, coisa além do tempo e do espaço... A ele lhe cai bem o poema de Oscar Wilde:

“Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto
e velhos, para que nunca tenham pressa”.

Finalmente, peço-vos licença para agradecer a esse devoto-do-divino, os belos retratos de sua sagrada família, fotografados pelas suas lentes-do-amor na página do Orkut e sintetizadas na auto apresentação desse poeta-profeta:

“Jonas Alves da Silva, brasileiro, casado, advogado.
Tenho dois filhos casados, dois netos, uma neta e um bisneto.
Minha esposa há 50 anos e para sempre,
Waldete Tilmann Ribeiro da Silva
(Bodas de Ouro - 2 de maio)”

Isso é uma declaração de amor! E como diz seu conterrâneo Drumond, nas suas maravilhosas sem-razões do amor:

“Amor é dado de graça
com amor não se paga
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse...”

Por isso mesmo Marcão!... No descortinar da próxima quinta-feira, deixe um pouco de lado seu Vademecum! Marcinha!... Manda preparar os pãezinhos de queijo! Pedroca!... Aperte o agogô e afrouxe o afoxé! Você Guilherme!... Libere seus colares coloridos! Enfim... Poetas, seresteiros, namorados de Araguari:

“Esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
que nós queremos sambar”

É chegada a hora de escrever e celebrar o ano novo que “cochila e espera sempre” no coração menino-e-valente do mestre Jonas.
Parabéns mano velho! Para você a benção dos celtas:

"Que a sorte das colinas te abrace.
Que teus bolsos estejam pesados e teu coração leve.
Que a boa sorte te persiga,
e a cada dia e cada noite tenhas muros contra o vento,
um teto para a chuva, bebidas junto ao fogo,
risadas que consolem aqueles a quem amas,
e que teu coração se preencha com tudo o que desejas".



(Homenagem da família ao amigo nascido no mesmo ano em que nasceram Rubem Alves, Eva Wilma, Lourenço Diaféria e Garrincha)

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE O ANO NOVO

Ano velho vai, ano novo vem... O eterno ciclo da natureza, fiel ao seu moto contínuo, mais uma vez deixa nos calendários a marca dos dias que já não existem mais.

E mais uma vez estamos a rodopiar, como um Bolero de Ravel, fazendo variações sobre o mesmo tema que nos é dado todo dia, a toda hora, a todo instante...

Por um instante sou tentado a pensar no tempo como uma cravejante navalha que sulcra e espalha, impiedosamente, marcas desalmadas pelo meu corpo. Mas depois, sou consolado de modo benfazejo, por um dos meus poetas favoritos:

“ Nossos dias são preciosos,
e com alegria os vemos passando
se no seu lugar encontramos
uma coisa mais preciosa crescendo:
uma planta rara e exótica,
deleite de um coração jardineiro,
uma criança que estamos ensinando
um livrinho que estamos escrevendo... ”

Depois me convenço que um ano novo só é novo se o dia que se chama HOJE for novo também. Arrisco, então, umas notas no meu pinho e peço ao Senhor do Tempo que todos possamos ter um feliz ano novo para veranear os invernos dos nossos outonos.

Carlos Alberto Rodrigues Alves

BOM PRINCÍPIO

Passei o “ bom princípio” no meio do mato, com o cheiro do capim-limão, nas barrancas do Paranapanema. Sem foguetórios, sem TV, sem comilança!
Era-me necessário fazer, sem nenhuma bravata, um poético e silencioso protesto contra o inferno-nosso-de-cada-dia;

Passei o “ bom princípio”, no meio dos sapos, dos martins-pescadores e dos pirilampos. Sem músicas breganejas, sem novelas e sem arruaças!
Era-me necessário fazer, sem nenhuma piequice, uma saudação à família, à natureza e à minha viola;

Passei o “ bom princípio” no meio do vale, com o sussurro das águas, envolto aos devaneios dos sacis-pererês. Sem relatórios piedosos, sem sacerdotes por perto, sem salamaleques!
Era-me necessário fazer, sem nenhuma igrejice, uma confissão-de-fé-diferente para o ano novo.

Por isso cantarolei, sob os acordes da viola caipira e com a alegria luxuosa dos compadres que conheci, meu salmo-caboclo, em altíssimo astral:

SARMO VINTE E TREIS

O sinhô é meu pastô e nada há de me fartá
Ele me faiz caminhá pelos verde capinzá
Ele tamém me leva pros córgos de águas carmas
Inda que eu tenha que andá
nos buraco assombrado
lá pelas encruzinhadas do capeta
não careço tê medo de nada
a-modo-de-quê Ele é mais forte que o “coisa-ruim”
Ele sempre nos aprepara uma boa bóia
na frente de tudo quanto é maracutaia
E é assim que um dia
quando a gente tivé mais-prá-lá-do-que-prá-cá
nóis vai morá no rancho do sinhô
pra inté nunca mais se acabá...

Êêêêêêtttttta sarmo bão sô!!!

Vi então que o sertão compreendeu e o ano novo amanheceu em paz...

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE A MÚSICA

No principio era a música, a música estava com a vida e a música era a vida.
Ela estava no princípio no assobio dos ventos, na dança das árvores e no sussurro dos riachos.
E a música se fez canto e habitou entre nós, cheio de encanto e de paixão.
É por isso que vivemos mergulhados em mares músicais. Em todo lugar e a qualquer hora.
Seja como canção, como videoclipe, como erudita, como popular, atonal ou eletrônica.
“Na rua, na chuva , na fazenda, ou numa casinha de sapé”.
Conforme profetizou Fernando Pessoa

Qualquer música, ah, qualquer,
logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer música calma!

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


Nós somos o que cantamos.
Em escalas de tons maiores ou menores, transcritas em pautas existenciais, harpejamos acordes nos quais ressoam nossos sonhos, nossas decepções, nossas saudades e nossas alegrias.
Ainda que não saibamos distinguir um bemol de um sustenido , em cantos, em ritmos-e-harmonias-por-nós executados-ou-ouvidos, traçamos nossa vida.
Afinada ou desafinadamente!

(Carlos Alberto Rodrigues Alves, amigo e pai do Kauan, menino bom, que ouve todas as noites minhas cantigas de ninar)

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE A DIDÁTICA COMO ARTE
“A vida é um constante ato de aprendizagem” Piaget

A DIDÁTICA tem perdido cada vez mais seu caráter instrucional baseada em aulas e provas repetitivas para assumir, com vigor, o “status” de arte. Esta arte jamais descarta as informações científicas, pois sem elas não se pode conhecer e manipular o mundo. Mas por outro lado, é importante saber que essas informações só serão relevantes se forem impregnadas de estética e beleza. Afinal, conhecimentos científicos são indispensáveis, mas sozinhos, são impotentes para transformar massas disformes em pessoas cidadãs.
Pensando assim, a DIDÁTICA contempla alguns princípios significativos que precisam estar na pele e nos poros do educador contemporâneo.
Primeiro princípio didático: Mais do que dar respostas a perguntas que não foram feitas, o professor deve ter capacidade de propiciar ao aluno capacidade de pensar critica e criativamente a realidade. Aprendendo a arte de pensar o aluno cria a possibilidade de descobrir novos saberes. Não fica apenas na memória acumulada. Produz novos conhecimentos. O educador que compreende esse princípio pode dizer como Edgar Morin : “Uma cabeça bem feita vale mais que uma cabeça cheia”.
Segundo princípio didático : O Educador que sabe este princípio sabe que seu dever é trabalhar para que o aluno tenha o prazer da autonomia. Este processo tem duas dimensões: a dimensão do prazer e a dimensão da dor. Aprendemos o saber quando ele tem sabor. Mas também há aprendizagens profundas que nos dilaceram as entranhas. Lembro-me também de um adágio popular: “Ostra feliz não produz pérola”.
Terceiro princípio didático: O educador tem que querer a emancipação completa do aluno: seu conhecimento racional e também o poder de sua auto-estima. Isto exige do educador uma didática que esteja voltada para uma visão holística, para as múltiplas inteligências, para a integração de conhecimentos e para a transdisciplinaridade. O educador que entende esse princípio sabe que bom professor não é o que produz alunos, mas o que produz mestres.
Pensar a DIDÁTICA como arte é pensar que em cada aluno existe uma beleza adormecida. Concordo com rubem Alves quando diz: “As inteligências dormem. Inúteis são todas as tentativas de acordá-las por meio da força e das ameaças. As inteligências só entendem os argumentos do desejo: elas são ferramentas e brinquedos do desejo”.

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SALMO DA PAZ SONHADA

A esta hora exatamente,
Em que acordos de paz são incapazes de paz
Existe, em algum canto de um casebre distante,
Uma pintura pobre, mas rica, que diz: Lar Feliz!

A esta hora exatamente,
Em que os imperadores insensíveis
Dizem que a guerra é santa,
Existe, em algum lugar do planeta,
um profeta que protesta na praça com o povo.

A esta hora exatamente,
Quando paira no ar um presságio de pavor,
Existe em capela qualquer,
quem se apressa na prece e pede:
Venha o Teu Reino, Senhor!

A esta hora exatamente,
Quando as estrelas atômicas profanam o céu do Senhor
Existe em alguma várzea poluída
Um menino que empina uma pipa,
como a pomba da paz.

A esta hora exatamente,
Em que sobe da terra o sangue das mulheres silenciadas,
Existe em algum quintal,
uma senhora de idade
que planta em seu novo jardim
Uma, duas, três rosas com amor.

A esta hora exatamente,
Em que o berro estridente exalta o holocausto
Existe em algum barraco
uma criança nascendo,
Trazendo e fazendo o futuro...

Senhor, que os teus pequenos sinais de vida
enfraqueçam as grandes pretensões da morte
E que possamos cantar sob mil bandeiras brancas
A paz que traz o bem que um dia vem...

Salmo do Carlos Alberto Rodrigues Alves para judeus e palestinos

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE O ANJO DA MORTE QUE ME RONDOU

O filósofo-educador Edgar Morin, autor de "O homem e a morte", lembra que a ciência que pesou o sol, continuou como que intimidada e trêmula diante do outro sol, a morte.

Não é o meu caso! Tenho uma hiper-consciência de minha finitude. Por isso não tenho medo da morte! Aprendi isso com meu pai que, antes de morrer me pediu , enfaticamente: “ Meu filho, coloque no meu túmulo esta frase ‘ aqui jaz alguém muito a contra gosto’”.

Digo isso como prelúdio a uma informação a meus amigos. Fui visitado esta semana pelo anjo da morte. Não morri como prova esta página que estou escrevendo!
Mas estive quatro dias nos porões do Hades, na UTI. Suspeita de enfarto, angina, veia entupida, seja lá o que for, problema cardíaco enfim!

Que cenário dantesco vivenciei! De um lado um irmão canceroso, de outro lado um irmão aidético. Ambos terminais! Eu no meio, como Jesus na cruz.
Com uma diferença: O da minha esquerda e o da minha direita já estão no paraíso!
Depois de minha infernal-purgação no hospital, com aparelhos-de-alta-técnica-e-alta-violação-a-este-vil-pecador, com mapeamentos-invasores-de-todas-minhas-intimidades, com exercícios-hercúleos-a-moda-do-Sísifo, o referido anjo resolveu me poupar. E me passou algumas lições:

Primeira delas:
- Amor e humor acima de tudo!
Obrigado meu alegre anjo, mas você sabe que isso faço com sucesso. Que o digam minha família, meus amigos de fé, meus camaradas!
Até aí estou aprovado! Conforme orientação de meus médicos este foi um dos segredos deste brasileiro-estatura-mediana-rubro-negro-de-coração, ainda estar vivo e ativo no planeta terra!

Segunda lição:
- Já que a vida é curta, curta cada momento da vida!
Sabedoria de Hipócrates: “Breve é a vida, longa a arte! Fugidio é o momento, difícil a decisão, sábia a escolha”!
Também sei disso meu sábio anjo! Vivo isso como filosofia de vida. Até aqui tenho nota dez!

Terceira lição:
- Trabalhe menos! Você não vai ficar rico! Faça só o que você gosta!
Esta lição ainda não aprendi meu prudente anjo! Estou reprovado!
Há muito tempo que não quero ficar rico, mas preciso pagar o de ontem! Que fazer?
Devo evocar Vinícius de Moraes?

“Depois faço a loteca com a patroa
Quem sabe o nosso dia vai chegar
E rio porque rico ri à toa
Também não custa nada imaginar”

Ou devo procurar ajuda de meus irmãos-de-fé-camaradas-de-vida-boa-sem-stress-sem-conta-pra-pagar???
Oh! Meus-gnomos-meus-elfos-meus-emos-meus-alquimistas-devotos-de-Onã-o-bárbaro:
Marcão, Reginaldo, Edmar, Alessandro, Jaime, Dr. Luiz Antonio, Mânfio, queiram me dar a fórmula...

Acho que nem vocês vão me ajudar!
O jeito é continuar driblando a morte!
Por enquanto, estou tendo sucesso!
Enquanto ela não me encontra, vou zombando dela.
Quando ela chegar, com suas carrancas, lembrarei do Tagore:

"No dia em que a morte bater a tua porta que lhe oferecerás?
Porei diante de minha hóspede
o vaso cheio de minha vida.
Não a deixarei ir de mãos vazias...'”


Anjo da morte!
Fique tranquilo, ainda não é chegada a minha hora!
Quero viver mais 200 anos...

(Aos amigos que torceram para que eu ficasse por aqui mesmo)

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE TEOLOGIA

“Teologia é o caminho mais longo para se chegar a Deus”. Mario Quintana

Sou visionário de um tempo em que as palavras sobre o indizível deixarão de se transformar em mortalhas para embalsamar Aquele cujo nome é impronunciável.

Até lá procuro tecer com outros irmãos, também exilados, uma rede de balanço onde as palavras se espalhem musicalmente pelo vento e anunciem aos quatro cantos da terra que o mundo ainda tem jeito apesar do que os donos da religião têm feito.

Sonho com um novo tempo em que a beleza, em suas multiculturais cores, substituirá as doutrinas-fossilizadas, os musicultos bregas e as pregações-burocráticas cada vez mais caducas de nossas comunidades.

Irei cantar e fazer parte do cordão do irmão-poeta-profeta Rubem Alves:

"Hoje faria tudo diferente.
Começaria por informar meus leitores de que teologia é uma brincadeira,
parecida com o jogo encantado das contas de vidro que Hermann Hesse descreveu,
algo que se faz por puro prazer,
sabendo que Deus está muito além de nossas tramas verbais.
Teologia não é rede que se teça para apanhar Deus em suas malhas,
porque Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar...
Teologia é rede que tecemos para nós mesmos,
para nela deitar nosso corpo.
Ela não vale pela verdade que possa dizer sobre Deus
(seria necessário que fôssemos deuses para verificar tal verdade);
ela vale pelo bem que faz à nossa carne".

Quando estiver próximo este tempo se cumprirá a profecia do Apocalipse:

"E não vi ali templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso".

Carlos Alberto Rodrigues Alves

A PORTEIRA DO SÍTIO DO ANGELIM

“ O real da vida se dá, nem no princípio e nem no final. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” . Guimarães Rosa
Prezado compadre Angelim:

Quem chegar ao teu sítio verá, deslumbrado, que ali existe uma porteira que esconde segredos aos olhos normais. Impossível tentar comprendê-la apenas pelas leis da física.

O poeta que a fotografou , emoldurou-a numa pintura em-preto-e-branco! Posso entender suas razões! Uma foto colorida é muito explícita , não dá a quem olha a possibilidade de fazer voar o pensamento. Já um retrato preto e branco sugere coisas, estimula a criatividade e dá asas à imaginação. É mais que uma cópia do original.

“ O essencial é invisível aos olhos”, dizia “ 'Zé Perri'”! Somente quem possui a arte de ver com a alma é que pode usufruir da magia de ver além-das-coisas. Para Drumond, uma pedra no caminho é mais que uma pedra. Para Neruda, uma cebola é uma catedral.

Assim também quem tiver olhos-além-das-leis-físicas, verá que a porteira que dá identidade ao teu recanto sagrado , tem uma mística, um ar transcendental, um feitiço que somente poetas-cantadores-do-sertão poderão entender. Parece tão fechada que por ela é impossível passar os burocratas, os teóricos racionalistas, os religiosos fundamentalistas. Parece tão mansa que é um convite escancarado para quem quiser adentrar a um universo habitado por coisas-de-outro-mundo.

Dizem que a gente vê o que a gente é. Talvez isso explique o porquê deste singelo-aprendiz-de-violeiro ter sido seduzido pela magia que adorna a paisagem bela e bucólica do teu sítio. Eu pelo menos, toda vez que fico visualizando a onírica porteira , vejo nela satíricos sacis fazendo algazarras, fantasmagóricas almas-penadas fazendo ranger suas enferrujadas dobradiças, além de amantes-de-veredas-tortuosas vindo ali em noites-de-lua para reafirmar seus votos ou chorar suas despedidas. Tudo isso ao som de violeiros ponteando variações sobre a vida-e-a-morte. Fantástico retrato pintado com o tom dos personagens místicos do Guimarães Rosa, sempre inspirados por “um vaga-lume lanterneiro que riscou um psiu de luz”!

A quem estiver lendo minha carta endereçada ao compadre Angelim, e quiser certificar se tudo o que estou dizendo é verdade, basta apear no endereço http://www.angelim.mus.br/. Fique olhando a porteira! Quem conseguir ver outros mil personagens dali saindo, não pense que está ficando doido. É apenas um sinal de que está adquirindo olhos de um poeta-violeiro.

Agora, quem adentrar propriamente no sítio do meu compadre, com certeza , não vai querer mais voltar para o lado de cá. Mas isso já é outra história...
Viva Miguelim!

Abraço do compadre

Carlos Alberto

Carlos Alberto Rodrigues Alves

OCHELCIS AGUIAR LAUREANO


Foi na nossa igrejinha de tantas histórias...Meados dos anos 80.

Lembro-me que era uma noite bem curitibana. Quarta-feira , chuva fina e fria. Pouquíssimas pessoas a ouvir minha mensagem pastoral.

Ao final do culto, quando os abraços da despedida sacramentavam a beleza da amizade, pedi ao único visitante para ficar em pé e se apresentar.

Um senhor de cabelos prateados, extremamente simpático, levanta-se do último banco, caminha até o pequeno púlpito, me abraça e diz:

- “Seu pastor, que bom ouvir o senhor! A gente quanto mais velho mais vai aprendendo coisas”.

Os fiéis, atentos àquele irmão estradeiro, passa então a ouvir algumas saudações carinhosas que culminam com sua auto apresentação em tom de "barítono-alegro-com-brio":

- “Sou um estudioso do folclore brasileiro. Digamos...um poeta sertanejo! Fui aluno e amigo de Villa-Lobos. Mas o que eu gosto mesmo é de gente alegre!”

E continuou serenamente:

- “Talvez pelo meu nome os senhores não me conheçam. Mas tenho certeza que já cantaram minha música! É uma das canções mais conhecidas no Brasil! Posso dizer que abaixo de nosso Senhor, que me deu inspiração, vivo dela! Eu sou Ochelcis Aguiar”!

Nossos fiéis ficaram na mesma! Ouvi o forte silêncio do suspense que só foi quebrado depois que ele completou !

- "Sou Ochelcis Aguiar, mais conhecido como Laureano, e mais conhecido ainda, como o autor da música “Marvada Pinga”.

Depois dos risos e muitas palmas , eu e meus fiéis, até então preparados para ir embora, pegamos pelo braço esse gigante da nossa cultura e o levamos para o salão social da Igreja.

Ninguém quis lhe dar sermão pela controvertida e imortalizada letra. Ao contrário! Uma improvisada noite lítero-musical foi até mais tarde, com os fiéis sobriamente-embriagados.

E assim saudamos a cultura do nosso chão preto, chão menino, chão do coração...E assim saudamos o compadre Laureano.

Quem quiser saber mais sobre o saudoso Laureano, há muita coisa por aí...

Sobre essa história que vivenciei... só aqui!

A ele, portanto, um brinde com sabor de sassafraz...!

Carlos Alberto

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE DARWIN E OS FUNDAMENTALISTAS


No dia em que Darwin faria 200 anos:

Os fundamentalistas continuam perdendo a oportunidade de se conscientizar que toda a verdade vem de Deus, independende de quem a pronuncia. A eles o princípio sempre evolutivo do Evangelho “ Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

No dia em que Darwin faria 200 anos:
Os fundamentalistas continuam perdendo a oportunidade de acreditar na Bíblia como um livro vivo-inacabado-e-sempre-aberto-para-a-vida, para fazer dela o papa-de-papel. Para eles a canção que canta a evolução e revolução da história:

“A História é um carro alegre
cheio de um povo contente
que atropela indiferente todo aquele que a negue
É um trem riscando trilhos abrindo novos espaços
Acenando muitos braços balançando nossos filhos”

No dia em que Darwin faria 200 anos:

Os fundamentalistas continuam perdendo a a oportunidade de estabelecer um diálogo profícuo entre fé e ciência. A eles o pensamento evolucionista do cientista Pasteur "Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima."

No dia em que Darwin faria 200 anos:

Os fundamentalistas continuam acreditando na literalidade do relato de Adão e Eva, e portanto, continuam perdendo a oportunidade de entender que este texto sagrado tem por finalidade formar e não informar o ser humano. A eles a essência da beleza presente no Gênesis, que sempre deve evoluir no ser humano:

Homem,
cuida-te muito em não fazer chorar uma mulher,
pois Deus conta-lhes suas lágrimas.
A mulher foi feita do lado do homem,
não dos pés para ser pisoteada,
nem da cabeça para ser superior
mas, sim, do lado para ser igual....
debaixo do braço para ser protegida
e do lado do coração para ser amada".

A todos que sabem que fé e ciência podem e devem andar de mãos dadas, meu profundo respeito e a certeza de que Fernando Pessoa está correto quando escreve:

"Sou contra os tres maiores inimigos da humanidade: a ignorância, a pobreza e a intolerância".

Carlos Alberto Rodrigues Alves

UM ANJO CHAMADO FABRÍCIA
Estória que me contaram:

Num desses domingos de manhã, depois de um longo peregrinar pelas praças e catedrais, Jô e Régis bateram na porta do céu em busca do sonho maior.

Na agenda do casal havia uma solicitação especial: “Senhor! Queremos um anjo para morar conosco! “

Um dos querubins ali presentes, responsável pelo controle de qualidade do paraíso, sussurrou aos seus ouvidos:

“Parece...Parece...que é um sonho impossível! Vocês são muito exigentes!
Terão que esperar mais um pouco, saber que aço bom agüenta altas temperaturas e entender que ouro bom tem que passar pelo fogo”.

Nesse momento, com uma calorosa recepção, olhar manso e bom, o criador estendendo os tapetes com as cores paranistas, interveio na conversa e lhes disse:

“Não se preocupem! Tenho este presente especial para vocês. Só que ainda não está pronto! Coisas especiais, vocês sabem, realmente ficam próximas das coisas impossíveis. Mas é do impossível que faço as coisas mais belas”.

E para atender o difícil pedido o criador foi buscar matérias-primas que não existem no céu:
a alegria dos raios do sol
o dengoso olhar de um cãozinho fiel
as gotas do choro das nuvens
o perfume da jabuticabeira
e o terno cantar do cuitelinho

Tempos depois, veio o bom Deus com sua obra primorosa e entregou ao casal .

Ao receber tão rico presente, ainda sem acreditar, Jô e Régis olharam para o Criador, agradeceram-lhe efusivamente e passaram a sorrir que nem dois bobos pelas ruas da cidade.
Quem encontrar os dois por aí, vendo borboletas por todo lado, não se assustem! Saibam que são meus compadres. É fácil de identificá-los. Eles vivem sempre de mãos dadas com um belíssimo anjo que atende pelo nome de Fabrícia.

(Beijos do Carlos Alberto, Lu, Kauan , Giulia e Giovani ... amigos e compadres)

Carlos Alberto Rodrigues Alves

PALAVRAS DE PAZ COM PÁSCOA
(As sete palavras da cruz)


ABERTURA :

NARRADOR:

(A criação)
No princípio era a beleza das videiras e dos parreirais
que se entrelaçavam e se espalhavam pelo paraíso
Em consagradas liturgias o Criador chamava suas criaturas
para celebrar a dádiva da vida
em ceias-sempre-santas-tantas-quantas
E viu Deus que era bom...

(O pecado)
Mas, em algum momento de tormento
desinventaram a arte de amar:
Os cains tornaram bélico o que antes era belo
Para uns muitos “a ordem” para uns poucos “o progresso”
As torres de Babel, em inferno, transformaram o céu
Mudaram em pães amargos o que antes era doce ao paladar
A terra produziu espinhos e cardos.
Diz-se que jamais o mundo foi o mesmo.
Houve trevas sobre a face do abismo...

(A profecia)
Acontece
que poetas, profetas e cantadores em prece
gritaram na vez dos sem-voz,
salmodiaram sonhos-em-sorrisos,
perscrutaram-promessas-de-um-porvir-promissor.
“As crianças brincarão com os velhos na praça
Aqueles com sua inocência, estes com sua experiência!
Todos celebrindando a paz dos parreirais...”

(A encarnação)
E, de fato,
Mais tarde quando a história, então grávida, deu à luz,
O Amor se fez carne e habitou entre nós cheia de graça e bondade.
Grandes coisas se viu, boas novas se ouviu!!!
“É chegado o novo tempo, é chegado o novo dia!
bem-vindos todos à farta mesa da Eucaristia”.
O pão se multiplicou em sinais de solidariedade,
o vinho se transubstanciou em alegria...


(O apocalipse)
Depois destas coisas eu vi um novo céu e uma nova terra.
Não havia mais as garras da guerra
nem as feias-faces-da-fome
mas, na comunhão da Paz-com-páscoa
havia pão em cada mão e vinho em cada copo.
Enquanto os anjos cantavam Aleluia ao vencedor da cruz
apressei-me na prece,e , em memória dele relembramos as

Sete palavras de Salvação
Sete palavras de Vida
Sete Palavras da cruz


1ª PALAVRA DA CRUZ – A PALAVRA DO PERDÃO (Lc 23:33, 34)

33- E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.

34- E dizia Jesus: PAI, PERDOA-LHES, PORQUE NÃO SABEM O QUE FAZEM.

CANTO PRIMEIRO: A PAZ CAPAZ
-I-
Leve, leva o coração
o sentido e a razão
de viver em bem-querer
quem vive pra bem-dizer
-II-
Perdoar é ser feliz
ver o mundo que Deus quis,
leva a mágoa pro bom Deus
lave a lágrima do adeus
-III-
Pai perdoa e traz a paz
que a vingança se desfaz
faz a face florescer
faz da noite o alvorecer

NARRADOR : ORAÇÃO:
Pai nosso do perdão
estás nos céu de nossa paz
santificado sejam teus braços
que em abraços nos acolhe como pai de amor
Venha a nós o teu reino de bondade
Seja feita a tua vontade de ternura e generosidade
e não nos deixes cair em tentação
de pensar ou vivenciar alguma crueldade
mas livra-nos de praticar qualquer forma de maldade
Pois teu é o reino, o poder e a glória






2ª PALAVRA DA CRUZ – A PALAVRA DA PROMESSA DO PARAÍSO (Lc 23:43)

41 E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.
42 E disse a Jesus: Senhor lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.
43 E disse-lhe Jesus: EM VERDADE TE DIGO QUE HOJE ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO.

CANTO SEGUNDO: PAZ DO PARAÍSO

-I-
A eternidade, luz da realidade,
com seus mistérios, ocultos, etéreos
Deus fez nascer, crescer em cada ser

REFRÃO:

Senhor, sendo sonho e saudade sou
peregrino pedindo a plena luz
para isso dá-me teu paraíso

-II-
A busca sem cessar um pouco além
de quem vive de viver para “o aquém”
transforma um pouco em céu “o aqui” também


NARRADOR -

Um dia, a paz e a justiça
coroarão nossos belos mundos sonhados
Um dia, a paz e a justiça
se beijarão como eternos namorados
Um dia, a paz e a justiça
sepultarão os mais temidos arsenais
Um dia, a paz e a justiça
serão as ternas verdades finais
Um dia, a paz e a justiça
tirarão de nossos lábios a palavra guerra
Um dia, a paz e a justiça
brindarão este nosso céu chamado terra
Um dia, a paz e a justiça
exterminarão as feias faces da fome
Um dia, a paz e a justiça
serão de todas as nações, o novo nome
Um dia, a paz e a justiça
irão celebrar, alegremente, nossa utopia
Um dia, a paz e a justiça
farão nascer da noite escura, o sol do novo dia.





3ª PALAVRA DA CRUZ – A PALAVRA DA FAMÍLIA ( Jo 19:26-27)

25 E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena.
26 Ora Jesus, vendo ali sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho.
27 Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa.

CANTO TERCEIRO: FAMILIA DA ESPERANÇA

E da mulher que simplesmente era Maria
fez o Senhor a grande mãe que não havia
e pra João um pescador, um andarilho
deu o bom Deus a graça ser o bom filho
Também de um povo então perdido na lembrança
o criador fez a família da esperança.

PRECE DE GRATIDÃO

A esta hora exatamente,
Em que acordos de paz são incapazes de paz
Existe, em algum canto de um casebre distante,
Uma pintura pobre, mas rica, que diz: Lar Feliz!






4ª PALAVRA DA CRUZ – A PALAVRA DA SOLIDÃO (Mt 27:46)

45 - E, desde a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra, até a hora nona.
46 - Cerca da hora nona, bradou Jesus em alta voz, dizendo: ELI, ELI, LAMA SABACTANI: DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?


CANTO QUARTO: PARA ALÉM DA SOLIDÃO

-I-
Um tempo parece que a prece
desfaz-se ao sopro do vento
tal qual um fugaz pensamento
que a gente depressa esquece

-II-
é quando a total solidão
trazendo a terrível tristeza
nos deixa de lado a certeza
que a fé não passa de algo em vão

-III-

Porém muito além da oração
mais forte fala ao coração
a voz que vem valer a vida
“não temas sou teu Deus na lida”


CONFISSÃO DE FÉ (TODOS OS CORALISTAS EM ONÍSSONO)

Há quem, descrente, acha que Deus é criação dos homens
Nós, porém, ousamos crer no Senhor de todos os povos e todas as raças

Há quem, resignado, afirma que a fome e a guerra são inevitáveis
Nós, porém, ousamos crer no Pão da Vida e no Senhor da Paz

Há quem, arrogante, acredita na lei do mais forte
Nós, porém, ousamos crer no Deus que é amor

Há quem, pretensioso, queira prender o Espírito em suas certezas
Nós, porém, ousamos crer que o Espírito sopra onde quer

Há quem, pobre, confia na inabalável segurança de Mamom
Nós, porém, ousamos crer no Senhor da Providência

Há quem, angustiado, pensa que a coroa da vida é a morte
Nós, porém, ousamos crer que o Senhor faz novas todas as coisas







5ª PALAVRA DA CRUZ – A PALAVRA DA FINITUDE (Jo 19:28)

28 - Depois, sabendo Jesus que todas as coisas já estavam consumadas, para que se cumprisse a Escritura, disse: TENHO SEDE.

CANTO QUINTO: ÁGUA VIVA

I-
Há um deserto sempre perto
onde um certo desamor
faz brotar um brilho incerto
num jardim onde era amor

REFRÃO:

Dizei aos sedentos: “Vem”!
tive sede e sei também
há um rio, sim, há um mar
dentro de quem sabe amar


NARRADOR: LEITURA DE ISAÍAS 35: 8 - 10

7- E a miragem tornar-se-á em lago, e a terra sedenta em mananciais de águas; e nas habitações em que jaziam os chacais haverá erva com canas e juncos.
8- E ali haverá uma estrada, um caminho que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para os remidos.
9- Os caminhantes, até mesmo os loucos, nele não errarão.
10- Ali não haverá leão, nem animal feroz subirá por ele, nem se achará nele; mas os redimidos andarão por ele.


II -
Pois que a fonte há de jorrar
pra quem tem sede de ser
belo o sol vai se tornar
água viva vamos ter








6? PALAVRA DA CRUZ – A PALAVRA DA MISSÃO CUMPRIDA (Jo 19:30)

30 - Então Jesus disse: ESTÁ CONSUMADO. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

CANTO SEXTO: COMPROMISSO

Ninguém vem a vida sem missão
ninguém vive a vida em solidão
quando existe o gesto de se dar
solidário Deus está a partilhar

Deus se fez gente pra nos dizer
que a vida plena só pode ter
quem faz do amor constantemente
compromisso pra todo instante


NARRADOR:

A esta hora exatamente,
Em que sobe da terra o sangue das mulheres silenciadas,
Existe em algum quintal,
uma senhora de idade cumprindo uma missão de paz
Ela está em seu novo jardim
Uma, duas, três rosas com amor.
A esta hora exatamente,
Quando paira no ar um presságio de pavor,
apontando o descompromisso dos tiranos com o amor
Existe em uma capela qualquer,
Alguém compromissado que canta,
se apressa na prece e pede:
Venha o Teu Reino, Senhor!





7? PALAVRA DA CRUZ – A PALAVRA DA PROVIDÊNCIA (Lc 23:46)

46 - E, clamando Jesus com grande voz, disse: PAI, NAS TUAS MÃOS ENTREGO O MEU ESP?RITO. E, havendo dito isto, expirou.


CANTO SÉTIMO: MÃOS ETERNAS SEMPRE TERNAS

Nas mãos eternas sempre ternas
toda a vida tem direção
na mão que enlaça sim, de graça
cada vida sem distinção
meu ser encontra a paz capaz
de descansasr em comunhão

Bom Pai! No abraço de teus braços
morre o meu medo de morrer
vai se embora toda agonia
pois que o Pai me faz novo ser
se nossa vida vem de Deus
em Deus revive os sonhos meus


BÊNÇÃO FINAL:


LITANIA PAZ COM PÁSCOA (LEITURA ALTERNADA)

MULHERES:
Se, as ofensas que nos fizerem forem gravadas no ar
E as coisas belas que nos dedicarem forem gravadas no coração
Paz cm páscoa, aleluia VEM SENHOR JESUS

HOMENS:
Se, passando em infernos da vida,
Pudermos levar teu paraíso
Paz com páscoa, aleluia VEM SENHOR JESUS

MULHERES:
Se, em lares desagregados de amor,
Deixarmos as marcas da união
Paz com páscoa, aleluia VEM SENHOR JESUS

HOMENS:
Se, à sombra da solidão noite,
Reencontramos a luz da manhã
Paz com páscoa, aleluia VEM SENHOR JESUS

MULHERES:
Se, sedentos de todo tipo de sede
Brindarmos a água da vida
Paz com páscoa, aleluia VEM SENHOR JESUS

HOMENS:
Se, na missão de paz que nos é dada
Colocarmos toda paixão é fé
Paz com páscoa, aleluia VEM SENHOR JESUS

MULHERES :
Se, na paixão e morte de cada dia,
Reencontrarmos a vida eterna
Paz com páscoa, aleluia VEM SENHOR JESUS

HOMENS E MULHERES:

Senhor, que os teus pequenos sinais de vida
enfraqueçam as grandes pretensões da morte
E que possamos cantar sob mil bandeiras brancas
A paz que traz o bem que um dia vem... VEM SENHOR JESUS

Carlos Alberto Rodrigues Alves

O OUTONO E NÓS, SERES OUTONAIS

Foi-se embora o espalhafatoso verão!

De dentro do eterno ciclo da natureza retornou o outono, sereno e calmo!

“La belle season” é como batizaram os franceses esta estação que nos descortina as renovadas-vestes-da-divindade presentes na natureza.

Outono é uma parábola de nós mesmos, seres outonais! Suas manhãs são mais poéticas e os seus crepúsculos são mais filosóficos. Aquelas são belas em sua melancolia. Estes são melancólicos em sua beleza. Assim, somos todos nós.

Creio que é no outono que entendemos melhor o ensinamento de Oscar Wilde: “ser como crianças, para não esquecermos o valor do vento no rosto e ser como velhos para que nunca tenhamos pressa".

Isso é sabedoria. E se nos tornarmos mais sábios, já não precisaremos mais ter medo de envelhecer. Afinal, a vida também é um eterno renascer.

Coisa que só o outono ensina. O resto são folhas mortas.

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE MINHA PARÓQUIA

Alguns amigos que me vêem pastoreando a cidade durante a semana, perguntam-me constantemente, sobre minha paróquia, pois querem ir lá no domingo. Digo-lhes sempre que "O mundo é minha paróquia". Como eles insistem e me pedem carinhosamente mais detalhes sobre minha Pastoral, cito-lhes o poema-teológico de Emily Dickinson:

“Alguns guardam o domingo indo à Igreja,
eu o guardo ficando em casa
tendo um sabiá como cantor e um pomar por santuário.
Alguns guardam o domingo em vestes brancas,
mas eu só uso minhas asas.
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja,
nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável!
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final,
eu o encontro o tempo todo no quintal.”

Quando eu termino de recitar este catecismo, alguns desses irmãos repetem felizes e com devoção: Amém, estamos salvos!

Carlos Alberto Rodrigues Alves

SOBRE A TURMA DE TEOLOGIA 1980

Existem coisas que são mais belas no mundo da saudade.
Tentar fazê-las voltar ao presente, muitas vezes , é um exercício fadado ao desencantamento.

Digo isso como prelúdio a uma informação. Minha turma de teologia completará em pouco tempo, 29 anos de formatura e os colegas mais nostálgicos trabalham, herculeamente, na promoção de um reencontro.

Ainda não estou convencido a ir. As razões são simples. Acho que tenho medo de me sentir tentado a comparar a música alegre que nos embalava naquele tempo, com a canção mais cadenciada que nos acalenta hoje em dia! Ah, sim! Preocupa-me também ser chamado de barrigudo! Por outro lado, acho que não me sentirei confortável se presenciar algum colega conformado em ser um sólido-habitante-do-presente-à-espera-da-aposentadoria.

Quero mesmo é guardar daquele tempo, as imagens de nossas bravatas estudantis, as armadilhas banhadas que fazíamos aos professores e as heresias escandalosas que impingíamos aos monges mais santarrões. Outras tantas lembranças que ainda me fazem sorrir, só sairão da caixa de Pandora no juízo final.

Aos meus amigos que lá irão deixo-lhes, saudosamente, uma frase musical que ilustra meu pensamento : A gente era feliz e sabia...

Carlos Alberto Rodrigues Alves