Caio Fernando Abreu Morangos Mofados
Poderia talvez ser internado no próximo minuto, mas era realmente um pouco assim como se
ouvisse as notas iniciais de A sagração da primavera. O gosto mofado de morangos tinha
desaparecido. Como uma dor de cabeça, de repente. Tinha cinco anos mais que trinta. Estava na
metade, supondo que setenta fosse sua conta. Mas era um homem recém-nascido quando voltou-se
devagar, num giro de cento e oitenta graus sobre os próprios pés, para deslizar as costas pela sacada
até ficar de joelhos sobre os ladrilhos escuros, as mãos postas sobre o sexo.
Abriu os dedos. Absolutamente calmo, absolutamente claro, absolutamente só enquanto
considerava atento, observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui? Ou
se não aqui, procurar algum lugar em outro lugar? Frescos morangos vivos vermelhos.
Achava que sim.
Que sim.
Sim.
