Agton Barbosa de Souza
A vida é um barco que navega sobre um mar de mentiras.
E quando esse barco afunda você se afoga em toda realidade.
Pierrot
Do ponto da desgraça
Ao que o coração empala
Como Pierrot o tolo ensaia
A espera de sua Columbina
Dentre o olhar de um Arlequim
A sempre de se seguir assim
Cântico do desprezo ao fim
A fim de vedá-la o sim
Desprovido de palavras
Atuando a encantá-la
Coração logo dispara
Almejando conquistá-la
Devaneio que vem de mim
Ali em meio às garrafas de gim
Castigando-me enfim
Ao pensar no querubim
Dispenso as esperanças
Agrego-me a insignificância
Calando o que sentia
Assim começo outro dia.
Você tem que acreditar
Você tem que acreditar
Todos têm que acreditar
Mais em que acreditar?
Que ainda a esperança
Que tudo que passa é lembrança
Pois a sempre concordância
Você tem que acreditar
Que tudo que é feio é belo
Que fazemos um céu do inferno
E temos que olhar, sorrir e gostar
Você tem que acreditar
Que o mais forte não tem defeito
Que não existe preconceito
E toda situação lhe vem a calhar
Você tem que acreditar
Que o que escrevo é verdade
Que não existe atrocidade
Que o justo não possa superar
Pois é...
Você tem que acreditar
Castelo de areia
Meu castelo de areia
Bate a brisa volta e meia
Ruindo os sonhos
Monto meu quebra cabeça
Desligo-me do que me rodeia
Deixando os pensamentos medonhos
Tento me adaptar
Acabo por me esgotar
Preso a teias passadas
Sempre a me enganar
Buscando me normalizar
Mais com asas curtas
Em livre queda
Sufoca-me a ânsia
Da invasão de pensamentos
Vejo que tudo me queima
Praticamente me condena
Malditos, malditos são os sentimentos.
Quero o óbolo pra pagar
Quero o óbolo pra descansar
E tranqüilizar dentre os moribundos
Em esquecimento fazer parar
Em lembrança se transformar
Somente coisas passadas
Vivencia longa, frustrada.
Sem entendimento, cinzenta.
Mais no fim apenas palavras exageradas
O reflexo
Procura em tua alma
Um belo cântico soturno
Que conte tua nostalgia
De algumas noites pelo mundo
Diga-me o que lhe falta
Nesse infeliz viver sozinho
E qual a tua proposta
Ao encéfalo render-se ao vinho
Nessa tua face tão sofrida
E de alma tão corrompida
Apenas ser o simples estranho
Uma quimera esquecida
Com a vida mal resolvida
A quem este componho _seu espelho_
Olhares platônicos
Tua boca aquece minha alma
Teus olhos são minha calma
Rasga-me o desejo de reencontrá-la
Com seu som, música, palavras.
Perdi-me em meus desejos
Segredos profanos em bocados
Ceda aos meus vícios proibidos
Venha, pois somos destinados.
Encanta meus sonhos senhora
Clamo por seu nome até a aurora
Abraça-me como outrora
Dancemos nossa valsa
Valsa dos loucos apaixonados
Musica dos tolos embriagados
De passos e olhares platônicos
Que sacia nossos pecados
Marcou minha memória
Com meu medo de amá-la
Que rebenta o peito e fala
O desejo de tomá-la
Mas somos proibidos
Apenas sonhos não vividos
De dois seres reprimidos
E corações desencontrados
O pior morto é o que ainda vive e derrama já as lágrimas de seu funeral.
A dor
A dor é uma vilã passageira,
Em meio ao prazer do acaso,
Desmancha-se a um simples afago
De qualquer inocente e fria.
Sonho privado
Meus próprios erros,
Fazem a alusão de que me conheço,
Desprendo-me entre seus dedos,
E parto para um recomeço.
Desejos, pecados precários,
Maltrato a lembrança do fato,
De minha quimera em pedaços,
Eu pseudo poeta do sonho privado.
Distorço palavras de tempos em tempos,
Presença plena de meu descontento,
Faço de cada um de meus segundos enfadados,
Uma pequena cicatriz com drama de um fado.
E por fim esta tudo como os quadros,
Um regalo enquadrado e moldurado,
Em um canto, em intervalos admirados,
Por quem sonha do outro lado.
Uma vida vivida
Arquitetura de um corpo moribundo
Que nem em todo sofisma sonhara
De tanto viver entre falantes e falácias
Acabei chegando a este ponto sem palavras
Dentre as vertigens vejo um mundo
E uma firmeza limitada me falta
Para um caminhar de linhas tortuosas
A esse desregrante de palavras sagradas
Um brinde a toda alma de boêmio
Um trago para adoçar a vida amarga
E um pensamento as noites fantásticas
Em que deixei amantes ou amadas
Não deixo o alento da vida para provar algo
Apenas fato de que foi bem apreciada
De sua epigênese até as esfaimadas bactérias
Em meu epitáfio apenas estará “Uma vida vivida.”
O importante para o "artista" não é a arte
Mas a inspiração que o levou a fazê-la
O primor equivale a inspiração
Ela é o fruto de qualquer idéia bem resolvida.
Amar para sempre
Fascina-me minha dócil inocente
Tocar seu olhar sempre distante
Aguardar seu retorno inconstante
E saudar minha saudade eminente
Sua necessidade descomplacente
Altera todo um sistema em corrente
Meu tédio atrelado é incoerente
Vejo-me sentir como todo tolo sente
Que seu ultimo amar será amar para sempre
