Austregésilo Carrano Bueno
Por trás do combate
feroz do vento e das nuvens
a intocada estrela.
Grito da sineta
na última aula. Alegria.
Depois o silêncio.
Entre as ruas, eu,
e em mim, eu em outras ruas,
sob a mesma noite.
Lá, bem sobre a estrada,
a casa entre flores onde
não entrarei nunca.
Mesmo esse macaco
ridente, é incrível, um dia
ficará calado.
Virando, rompendo
as folhas secas, meus pés
sem respeito aos mortos.
Crânios num ossuário.
As pedras brancas invejam-lhes
muito pouco as vidas.
Chuva e névoa gélida.
Que frio teria o sapo
se tivesse frio?
Sobre mim a lua.
Lá atrás das altas montanhas
outro deve olhá-la.
Sobre o monte liso
contra o céu uma só árvore.
Gesto de vitória!
No olho das ruínas
as íris dos vaga-lumes
sob as tranças de ervas.
Nos bambus já escuros,
morcegos, daqui, dali,
também sem destinos.
Velho, esta manhã
naquele pátio ruidoso
é a que foi tua.
Na esquina sumindo
os homens. Logo outros homens
sumindo. Na esquina...
Mosquito ferido.
Quieta agonia de pernas
e antenas na noite.
Na noite trevosa
eis, quando menos se espera,
teu semblante, lua!
Meio-dia. O cego
marcha, batendo, batendo
sobre a própria sombra.
Lâmpada vermelha
no umbral da taberna. O vento
diz que ela bebeu.
Nuvem, ergue a pálpebra!
Quero ver o olho de cego
com que sondas a noite.
No solar ruído
há ainda verdes cortinas
e um senhor, o sapo.
