Ausente

Cerca de 388 frases e pensamentos: Ausente

As melhores biografias são aquelas das quais o biógrafo está ausente.

Henri Troyat

esta palavra saudade
conheço desde criança
saudade de amor ausente
não é saudade, é lembrança
saudade só é saudade
quando morre a esperança

Pinto do Monteiro

A saudade é um lago transparente a refletir sempre a imagem da pessoa ausente.

Desconhecido

Nem ausente, nem presente por demais. Simplesmente, calmamente, ser-te paz.

Fernando Pessoa

Ausente andei de ti na primavera,
quando o festivo abril mais se altavia,
e em tudo um'alma juvenil pusera
que Saturno saltitava e ria.

William Shakespeare

"Não é que eu queira estar pura da vaidade, mas preciso ter o campo ausente de mim para poder andar."

Clarice Lispector

No mundo antes do mundo meu

Quase sempre sou Eu,
Mesmo em dias tristes
Não me sentia só no mundo,
Vocês me abandonaram,
Porque me deixaram?

Aquele dia eu estava bem.
Tudo parecia normal,
Joguei a pedra no lago, mas
Me abondaram.
Porque me deixaram?

Enquanto eu olhava pela janela,
Vocês armaram contra mim.
Com um nó, sem perceber
Me abandonaram.
Porque me deixaram?

Estou sozinho agora,
Esse mundo é grande e,
E de todos idiomas que falo, agora
O que faz mais sentido é o silêncio.
Porque me deixaram?

Os dias tem sido os mesmos dias.
Enquanto eu olhava pela janela,
Via vocês pela janela.
Loucas danças, armaram contra mim.
Por que me deixaram?

No mundo antes do mundo meu,
Num canto solitário, compreendo
Que da janela vocês me vêem,
Pule fora! atravesse!
Mas não, porque me deixaram?


Aproveite a fresta da janela,
Arrisque, levanta-te! disse o pregador
Versos em prosa mal rimada arrisco
Depois os risco.
Sabe aquela tia mal amada?
Não aceito o processo
Me demito!

Declarado Ausente

Desabafo

Em silêncio eu protesto
contra meus "eus", revolto
revoada
Tempestade violenta
Não sou nada, sou tudo
Vazio
Há desordem ordenando fuga
Mas não há como fugir
Sou inteiro e maciço
Bloco de concreto
Sangue cinza encorpado
Melaço, sinto muito
Sinto muito, não por vocẽ
Mas por mim
Toma a pedra e me acerta
Mereço tanto, atire em mim
Quero ser outro
eu
Há desordem ordenando fuga
E eu fujo.
Não me encontro
Eu

Declarado Ausente

Há de se saber

Há de se saber
Que pele sobre ossos, não mais que isso terei
Que o simples caminhar, penoso me será
Que o leve bafejo,doença poderá trazer.

Há de se saber
Que dos filhos, muito pouco os verei
Que dois minutos a escrever, dois dias parecerá
Que dos novos sabores, pouco hei de conhecer.

Há de se saber
Que dos dias felizes, com menos frequência gozarei
Que a mobília antiga da sala,mais valor que eu possuirá
Que das cores não vistas, aprecia-las não terei o prazer.

Há de se saber
Que do dito, não me arrependerei
Que do amor perdido, ainda amor ele será
Que com a alma limpa, finalmente irei morrer.

Declarado Ausente

A fuga

Já estou há milhas de distância.
Foram dez mil quilos sobre mim, sobre as costas.

Me sinto livre, apesar de não estar completamente,
há ainda o peso da derrota alheia;

Os grilhões que me prendiam, ainda me prendem; agora não mais à correntes,
mas na minha própria consciência.

A lâmina que me cortou, ainda corta meus amigos,
Na alma que deixei, há terço de derrota;

Sem alma, não há aquecimento, e à existência descobri, que da dor sobrevive.
O fogo que mata, é fogo que dá a vida.

Declarado Ausente

Mini-manual da Boa Conduta

Tenha um kit de primeiros socorros
Seja delicado com os outros,
Aja naturalmente, não fume.
Ande com roupas limpas, não fure fila.

Conheça alguém legal, dê chocolates.
Diga que está bonita. Peça desculpas.
Desculpa é a resposta para tudo.
Coma vegetais.

Suba na montanha mais alta e grite;
Pense em coisas boas, faça um favor.
Palavrões, nem pensar.
Não pule muros. Entre sempre pela porta.

Compartilhe campanhas nas redes sociais.
Doe sangue. Corra a São Silvestre.
Não transe sem camisinha. Case aos vinte cinco.
Durma às onze, ligue para mamãe nos fins de semana.

Declarado Ausente

Posso parecer ausente mais não distante de você pois é a saudade que nos aproxima e nos mostra o quanto cada momento pode ser intenso ...

Alan Carlos

Mesmo ausente,estou aqui ..
Esperando você chegar.
Horas passam e eu aqui
Esperando você voltar..
Volta logo que eu te espero ..
Puxa papo pra eu não ficar só.
Te Amo .. te quero pra mim !

Raah Fernandes

Eu fiquei aqui com as minhas dúvidas e perguntas e todas às vezes que você estava ausente, eu inventei a sua parte da conversa. Tem ideia de como isso pode enlouquecer alguém?

Vinícius Kretek

TERÇA-FEIRA, 21 DE AGOSTO DE 2007

Existe sempre uma coisa Ausente - Caio F.
Paris — Toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.

Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos á2o anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.

Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.

Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.

Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.

O Estado de S. Paulo, 3/4/1994

Caio Fernando Abreu

O distante é o que aproxima e o ausente - não a ausência - é uma figura do retorno.

Pierre Fédida