Alice Ruiz
fim do dia
porta aberta
o sapo espia
Correndo risco
a linha do corpo
ganha seu rosto
lesma no vidro
procura uma sombra
que seja ela mesma
entre velhas páginas
uma folha ainda verde
da casa antiga
tarde cinza
toda azaléia
arde em rosa
mosquito morto
sobre poemas
asas e penas
nuvem de mosquitos
o ar se move
vento nenhum
silêncio de folhas
bananeira secando
à beira da estrada
travesseiro novo
primeiras confissões
a história do amigo
sono profundo
coberta de neblina
minha cidade
meio dia
dormem ao sol
menino e melancias
Cereja agridoce
o que tiver de ser
você seja
Teu corpo seja brasa. E o meu a casa que se consome no fogo.
Alice RuizEu vou tirar do dicionário
A palavra você
Vou trocá-la em miúdos
Mudar meu vocabulário
E no seu lugar
Vou colocar outro absurdo
Eu vou tirar suas impressões digitais
Da minha pele
Tirar seu cheiro
Dos meus lençóis
O seu rosto do meu gosto
Eu vou tirar você de letra
Nem que tenha que inventar
Outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
Com quantos "nãos" se faz um sim
Eu vou tirar o sentimento
Do meu pensamento
Sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento
A qualquer momento
Procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
Dos meus ouvidos
Eu vou tirar você e eu de nós
O dito pelo não tido
Eu vou tirar você de letra
Nem que tenha que inventar
Outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
Com quantos "nãos" se faz um sim
"Que tudo seja leve de tal forma que o tempo nunca leve."
Alice RuizTanka
peixe pulsando
na mão
que ao mar te devolve
ainda que você me deixe
viver nos move
Humilde para ser uma
Úmida para ser duas
Única para ser muitas
Agora
agora sim
tenho a morte na alma
e a vida nas mãos
haja ou não
um você aqui
agora estou só
agora sim
o que sobrar de mim
é meu
agora não há mais dúvida
pagando todas as dívidas
me livrarei deste eu
este agora que me escapa
me inaugura e funda
outro eu que vai pro mundo
outra dor que vai a furo
outro agora ainda mais fundo
por um segundo mais claro
agora é claro
que seja escuro
"Que o breve seja de
um longo pensar.
Que o longo seja de
um curto sentir.
Que tudo seja leve de
tal forma que o tempo nunca leve."
Devia ser proibido
devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido
estar do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais respirar (ar)
dizer adeus, ir embora
você partir e ficar
pra outra vida, outra hora
devia ser proibido... "
